Trago o futuro em meus olhos
E a morte em meu encalço
Trago na face a doença
E na mente a vaidade
Trago na boca a acidez
E na língua palavras rudes
Trago o sofrimento no coração
E na alma...
Esqueci
Não existem almas
Nunca vi, nunca senti
Nunca verei, nem me lembrarei
Nunca precisei e nem mesmo sonhei
Nunca gostei, nem me interessei
Existe apenas a imaginação
Enraizada no coração
Que será esmagado em minha mão
sexta-feira, 13 de agosto de 2010
sábado, 31 de julho de 2010
sexta-feira, 30 de julho de 2010
Morrer sonhando
Ontem eu estava morrendo
O ontem se foi
Se ontem eu morri
Por que hoje alguém me sorri?
Envolvendo-me na mortalha
Cortam-me com a navalha
Todas essas agruras da vida
Tolas preocupações
Ou preocupações necessárias?
Cada uma é uma lâmina
Cortando minha mente
Cortando meus sonhos
Ontem eu morri
E hoje volto a morrer
Quanto mais envelhecemos
Mais sonhos são destruídos
Novos sonhos se criam
Alguns são abortados
Outros ficam estagnados
Esperando o momento
De se tornar realidade
Para que os cortes sejam suturados
E os olhos enxugados
O ontem se foi
Se ontem eu morri
Por que hoje alguém me sorri?
Envolvendo-me na mortalha
Cortam-me com a navalha
Todas essas agruras da vida
Tolas preocupações
Ou preocupações necessárias?
Cada uma é uma lâmina
Cortando minha mente
Cortando meus sonhos
Ontem eu morri
E hoje volto a morrer
Quanto mais envelhecemos
Mais sonhos são destruídos
Novos sonhos se criam
Alguns são abortados
Outros ficam estagnados
Esperando o momento
De se tornar realidade
Para que os cortes sejam suturados
E os olhos enxugados
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domingo, 18 de julho de 2010
Anthropophagy I
English language version of the poem "Antropofagia I" published in the book "Antropophagya" by Marius Arthorius
Biting and tearing
The fragrant human skin
Bursting with the traditions
Food my body
With the meat of my similars
Digestion nefarious and adored
Breaking the tendons
That sustain the beings
That makes up the backbone of society
Originated by deformed embryo
Considered perfect and normal
Nothing too usual
Structure aborted
Does not sustain itself
Condemned to die
Nature originated
Putrid and bloody placenta
Surrounds and suffocates the child originated
Called of
Society
Devour the stagnant society
Allow it to head for the Nothing
Biting and tearing
The fragrant human skin
Bursting with the traditions
Food my body
With the meat of my similars
Digestion nefarious and adored
Breaking the tendons
That sustain the beings
That makes up the backbone of society
Originated by deformed embryo
Considered perfect and normal
Nothing too usual
Structure aborted
Does not sustain itself
Condemned to die
Nature originated
Putrid and bloody placenta
Surrounds and suffocates the child originated
Called of
Society
Devour the stagnant society
Allow it to head for the Nothing
terça-feira, 29 de junho de 2010
Vivissecção
Vinde a mim, ó desgraça funesta. Arrebente meu corpo com a gadanha que tu carregas. Taxidermize meu corpo, impregne ele com o sal que colocamos dentro da pele dos animais eviscerados que serão empalhados. Faça a precisa incisão inicial abaixo do meu tórax, arrastando a lâmina até minhas genitálias, separe a pele da carne. Preserve meu couro para a posteridade. Pois é com a aparência externa que as pessoas se importam. Destrua tudo que há dentro de mim. Preencha minha pele com macio algodão, sustentado por maleável arame de metal. Assim meu interior será agradável para todos.
Arranque meus olhos, pois eles são as janelas da alma. Através deles demonstramos os sentimentos de nosso encéfalo, sempre oculto na caverna craniana. Forneça para mim olhos de vidro. Que nada demonstram além do olhar vago e insensível de uma criatura morta. Para que assim eu não chore mais pelas paixões perdidas, pelas palavras não ditas e pelos momentos de alegria que ficaram no passado. Assim tem-se o protótipo perfeito do estereótipo social. Um ser que nada sente e que com nada se importa.
Aqui eu me encontro. Com todos estes objetos afiados em minha frente. Frio metal que dilacera a pele humana, como frias palavras que dilaceram os sentimentos humanos. Trazendo-nos as incertezas que se ocultam em todas as partes da vida. Viver é como andar em uma corda estendida sobre um abismo. Seguimos em frente, tentando manter o equilíbrio, rumo ao futuro. No entanto, basta um pequeno erro para cairmos na escuridão abissal. E dela não há mais retorno. Pois nenhuma mão poderá te alcançar, quando com a morte você se encontrar.
Os pregos com os quais agora me perfuro em autoflagelo, fazendo-os romperem a imaculada estrutura de meus ossos, rompendo barreiras rígidas e ocultas de osteócitos e osteoblastos. E talvez até dos osteoclastos. Numa vã representação da dor que assombra minha consciência. Destruindo minhas memórias como se eu tivesse caído nas garras de um parasita indomável. Para o qual eu represento apenas um banquete carnal a ser calmamente devorado. O rubro sangue escorre por inúmeras perfurações espalhadas em meu corpo. Libertando os eritrócitos antes aprisionados em minhas veias e artérias, livres para se encontrarem com alguns leucócitos. Livres para trazerem a morte para perto de mim.
Pudera arrancar todo e qualquer sentimento que verte através das conexões dos neurônios que compõe meu cérebro. Livrando a mim mesmo de sentir qualquer coisa triste ou feliz. Apenas vivendo, alheio e independente de tudo. Em uma cirurgia cerebral e corporal devo interligar meu consciente ao subconsciente, e assim, poder purificar meu corpo através do colapso de minha epiderme. Devo arrebentar meus músculos, como se os sarcolemas fossem devorados por um verme. O nematóide que destrói o antropóide.
Com a faca afiada, despedaço meus dedos. Um a um, separando cada falange. Dissecando cada nervo e tendão. Cortes rápidos e certeiros. Ignoro a dor, pois ela não se compara ao desespero que se instala em minha mente. Dividido na eterna dualidade que freqüenta toda pessoa, dividido entre a vida e a morte. Entre a perda e a rejeição, tudo vira aflição. Percebe-se que felicidade é mera ilusão. A corda da vida oscila fortemente, desgastando-se e quase arrebentando. Mas não é o suficiente, muito mais deve ser feito. Pois a loucura ainda não me encontrou. Dela eu dependo para que talvez eu desfrute da felicidade. Um escape da realidade.
Ainda usando lâminas afiadas, inicio a retirada de minha pele. Como se fosse uma simples veste que oculta a real natureza humana. Que oculta toda a nossa ancestralidade evolutiva. E é essa aparência que quero libertar. Somente assim poderei em paz descansar. Arranco-a lentamente saboreando a descoberta do desconhecido. Tornando minha beleza interior algo conhecido. Sem minha pele para me proteger, sinto quão gélido, frio e cruel é o mundo. Indiferente perante nossa presença animal. Meu corpo, agora vermelho, apresentando nossa cor interior. Como a pele de um demônio imaginário. Estremece perante o sopro do futuro. Emanado de algum dragão que se oculta no abismo que vejo abaixo de meus pés. O abismo da morte, no qual poderia finalmente encontrar a loucura. Meu corpo entra em espasmos devido às tormentas do passado. Seguro-me fortemente na corda vida, para não cair antes do devido tempo. Para não morrer antes do derradeiro momento. Pois a libertação deve ser finalizada. Para que a morte possa ser cruamente aproveitada.
Perco o controle sobre meus músculos. Com esse acontecimento, o conteúdo de meus intestinos escapa, deslizando sobre minha pele, esquentando minhas pernas. O adorável cheiro humano que está sempre perfumando a sociedade. Que demonstra o quão ridícula é nossa presença, apesar de todas as máscaras de importância que tentamos criar.
É necessário raspar a carne que envolve meus ossos. Assim aliviando o peso que há sobre mim. Pedaço por pedaço vou retirando-a. O colapso dos nervos que impulsionam os sinais de dor até meu cérebro. Deixando-o imerso em profunda confusão. Despedaço meu corpo, semelhante a qualquer outro pedaço de carne. Tudo para ter um segundo de tranqüilidade, esquecendo o desespero solitário que está enraizado dentro de mim. Sugando todas as minhas forças e vontades. Os sonhos se desfazem perante a doce ilusão da realidade. Realidade que eu percebo através de meus sentidos que facilmente podem ser enganados para ver tudo distorcido.
Esse barulho infernal que ouço, seria o barulho que a verdade produz em nossas mentes? Ou seria o barulho da dor representada através de meus gritos desesperados? Ainda tenho forças restantes. Com uma longa agulha perfuro meus ouvidos, faço o metal adentrar na escuridão de minha caverna craniana. Uma pequena dor para se obter o silêncio enlouquecido dos que foram eternamente esquecidos. Continuo a gritar, sinto a vibração de minhas cordas vocais. Faça o desespero parar! Pois se você for amar, então também poderá chorar. É o maldito risco que todos encontram quando tentam arriscar.
A mesma agulha que usei para perfurar meus ouvidos, uso para costurar meus lábios. Não sem antes arrancar a minha língua. Ela tenta escapar de minhas mãos como se tivesse vida própria. Nada que um alicate e uma tesoura não possam resolver. Está feito. Em minha frente a estrutura que permitiu que eu descobrisse os sabores do mundo. Sangue se mistura com saliva em minha boca. Engulo essa sacra mistura, como alguém que tenta engolir o choro do sofrimento. Sempre há um pouco mais para ser engolido. Já que o sofrimento é o peso que nos afoga rumo as entranhas da terra.
Quando encontrar a morte, vislumbrarei o que havia antes da vida. A escuridão. O silêncio, a ausência de sentidos e de imaginação. É a escuridão que se encontra antes e depois deste pequeno lampejo que chamamos de vida. E o que fazemos para aproveitar tal lampejo? Transformamo-nos em escravos. Escravos do dinheiro. Do sistema econômico sem o qual não conseguimos viver. Inusitadamente, o que nos permite viver é justamente o que nos impede de aproveitar a totalidade da vida. Não podemos comer papel, mas é ele que nos mantém vivos.
Mesmo com os sentidos destruídos ainda sou atormentado. Pelas lembranças da felicidade que não mais existe. E que agora não voltará a existir. Pois a corda da vida está se desfazendo. Não tenho mais forças para mantê-la. Preciso parar. Não sei como voar, para que do abismo eu possa escapar. Sei apenas caminhar e quase me arrastar. Através deste caminho no qual ninguém me ajudará. Não há como continuar. Com a fria lâmina que tanto trabalhou neste dia, que agora se encontra aquecida pelo meu sangue, irei partir meu coração em definitivo. Para não mais se recuperar. Cravo-a em meu peito. Lentamente rompendo todas as estruturas restantes. Deslizando rumo ao meu músculo cardíaco que se debate como um animal aprisionado que busca liberdade. Enquanto lágrimas dançam insanamente em minha face.
Desculpe Vida, sei o quanto tu és valiosa. Não quero depreciar sua presença, para mim você está acima de todas as coisas. Somente pelo seu valor eu já abnegaria prontamente a presença da Morte. Mas se neste caminho eu for obrigado a estar na presença da Solidão e da Escuridão, então prefiro encontrar estas duas na presença da Morte. Afinal, ela é o local de onde nós viemos.
Marius Arthorius
Arranque meus olhos, pois eles são as janelas da alma. Através deles demonstramos os sentimentos de nosso encéfalo, sempre oculto na caverna craniana. Forneça para mim olhos de vidro. Que nada demonstram além do olhar vago e insensível de uma criatura morta. Para que assim eu não chore mais pelas paixões perdidas, pelas palavras não ditas e pelos momentos de alegria que ficaram no passado. Assim tem-se o protótipo perfeito do estereótipo social. Um ser que nada sente e que com nada se importa.
Aqui eu me encontro. Com todos estes objetos afiados em minha frente. Frio metal que dilacera a pele humana, como frias palavras que dilaceram os sentimentos humanos. Trazendo-nos as incertezas que se ocultam em todas as partes da vida. Viver é como andar em uma corda estendida sobre um abismo. Seguimos em frente, tentando manter o equilíbrio, rumo ao futuro. No entanto, basta um pequeno erro para cairmos na escuridão abissal. E dela não há mais retorno. Pois nenhuma mão poderá te alcançar, quando com a morte você se encontrar.
Os pregos com os quais agora me perfuro em autoflagelo, fazendo-os romperem a imaculada estrutura de meus ossos, rompendo barreiras rígidas e ocultas de osteócitos e osteoblastos. E talvez até dos osteoclastos. Numa vã representação da dor que assombra minha consciência. Destruindo minhas memórias como se eu tivesse caído nas garras de um parasita indomável. Para o qual eu represento apenas um banquete carnal a ser calmamente devorado. O rubro sangue escorre por inúmeras perfurações espalhadas em meu corpo. Libertando os eritrócitos antes aprisionados em minhas veias e artérias, livres para se encontrarem com alguns leucócitos. Livres para trazerem a morte para perto de mim.
Pudera arrancar todo e qualquer sentimento que verte através das conexões dos neurônios que compõe meu cérebro. Livrando a mim mesmo de sentir qualquer coisa triste ou feliz. Apenas vivendo, alheio e independente de tudo. Em uma cirurgia cerebral e corporal devo interligar meu consciente ao subconsciente, e assim, poder purificar meu corpo através do colapso de minha epiderme. Devo arrebentar meus músculos, como se os sarcolemas fossem devorados por um verme. O nematóide que destrói o antropóide.
Com a faca afiada, despedaço meus dedos. Um a um, separando cada falange. Dissecando cada nervo e tendão. Cortes rápidos e certeiros. Ignoro a dor, pois ela não se compara ao desespero que se instala em minha mente. Dividido na eterna dualidade que freqüenta toda pessoa, dividido entre a vida e a morte. Entre a perda e a rejeição, tudo vira aflição. Percebe-se que felicidade é mera ilusão. A corda da vida oscila fortemente, desgastando-se e quase arrebentando. Mas não é o suficiente, muito mais deve ser feito. Pois a loucura ainda não me encontrou. Dela eu dependo para que talvez eu desfrute da felicidade. Um escape da realidade.
Ainda usando lâminas afiadas, inicio a retirada de minha pele. Como se fosse uma simples veste que oculta a real natureza humana. Que oculta toda a nossa ancestralidade evolutiva. E é essa aparência que quero libertar. Somente assim poderei em paz descansar. Arranco-a lentamente saboreando a descoberta do desconhecido. Tornando minha beleza interior algo conhecido. Sem minha pele para me proteger, sinto quão gélido, frio e cruel é o mundo. Indiferente perante nossa presença animal. Meu corpo, agora vermelho, apresentando nossa cor interior. Como a pele de um demônio imaginário. Estremece perante o sopro do futuro. Emanado de algum dragão que se oculta no abismo que vejo abaixo de meus pés. O abismo da morte, no qual poderia finalmente encontrar a loucura. Meu corpo entra em espasmos devido às tormentas do passado. Seguro-me fortemente na corda vida, para não cair antes do devido tempo. Para não morrer antes do derradeiro momento. Pois a libertação deve ser finalizada. Para que a morte possa ser cruamente aproveitada.
Perco o controle sobre meus músculos. Com esse acontecimento, o conteúdo de meus intestinos escapa, deslizando sobre minha pele, esquentando minhas pernas. O adorável cheiro humano que está sempre perfumando a sociedade. Que demonstra o quão ridícula é nossa presença, apesar de todas as máscaras de importância que tentamos criar.
É necessário raspar a carne que envolve meus ossos. Assim aliviando o peso que há sobre mim. Pedaço por pedaço vou retirando-a. O colapso dos nervos que impulsionam os sinais de dor até meu cérebro. Deixando-o imerso em profunda confusão. Despedaço meu corpo, semelhante a qualquer outro pedaço de carne. Tudo para ter um segundo de tranqüilidade, esquecendo o desespero solitário que está enraizado dentro de mim. Sugando todas as minhas forças e vontades. Os sonhos se desfazem perante a doce ilusão da realidade. Realidade que eu percebo através de meus sentidos que facilmente podem ser enganados para ver tudo distorcido.
Esse barulho infernal que ouço, seria o barulho que a verdade produz em nossas mentes? Ou seria o barulho da dor representada através de meus gritos desesperados? Ainda tenho forças restantes. Com uma longa agulha perfuro meus ouvidos, faço o metal adentrar na escuridão de minha caverna craniana. Uma pequena dor para se obter o silêncio enlouquecido dos que foram eternamente esquecidos. Continuo a gritar, sinto a vibração de minhas cordas vocais. Faça o desespero parar! Pois se você for amar, então também poderá chorar. É o maldito risco que todos encontram quando tentam arriscar.
A mesma agulha que usei para perfurar meus ouvidos, uso para costurar meus lábios. Não sem antes arrancar a minha língua. Ela tenta escapar de minhas mãos como se tivesse vida própria. Nada que um alicate e uma tesoura não possam resolver. Está feito. Em minha frente a estrutura que permitiu que eu descobrisse os sabores do mundo. Sangue se mistura com saliva em minha boca. Engulo essa sacra mistura, como alguém que tenta engolir o choro do sofrimento. Sempre há um pouco mais para ser engolido. Já que o sofrimento é o peso que nos afoga rumo as entranhas da terra.
Quando encontrar a morte, vislumbrarei o que havia antes da vida. A escuridão. O silêncio, a ausência de sentidos e de imaginação. É a escuridão que se encontra antes e depois deste pequeno lampejo que chamamos de vida. E o que fazemos para aproveitar tal lampejo? Transformamo-nos em escravos. Escravos do dinheiro. Do sistema econômico sem o qual não conseguimos viver. Inusitadamente, o que nos permite viver é justamente o que nos impede de aproveitar a totalidade da vida. Não podemos comer papel, mas é ele que nos mantém vivos.
Mesmo com os sentidos destruídos ainda sou atormentado. Pelas lembranças da felicidade que não mais existe. E que agora não voltará a existir. Pois a corda da vida está se desfazendo. Não tenho mais forças para mantê-la. Preciso parar. Não sei como voar, para que do abismo eu possa escapar. Sei apenas caminhar e quase me arrastar. Através deste caminho no qual ninguém me ajudará. Não há como continuar. Com a fria lâmina que tanto trabalhou neste dia, que agora se encontra aquecida pelo meu sangue, irei partir meu coração em definitivo. Para não mais se recuperar. Cravo-a em meu peito. Lentamente rompendo todas as estruturas restantes. Deslizando rumo ao meu músculo cardíaco que se debate como um animal aprisionado que busca liberdade. Enquanto lágrimas dançam insanamente em minha face.
Desculpe Vida, sei o quanto tu és valiosa. Não quero depreciar sua presença, para mim você está acima de todas as coisas. Somente pelo seu valor eu já abnegaria prontamente a presença da Morte. Mas se neste caminho eu for obrigado a estar na presença da Solidão e da Escuridão, então prefiro encontrar estas duas na presença da Morte. Afinal, ela é o local de onde nós viemos.
Marius Arthorius
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sofrimento,
tristeza
Salahtiel
Escrito em conjunto com o escritor Márson Alquati.
“Quem esquece os erros do passado, está fadado a repeti-los.”
O sol iniciava a sua atividade, surgindo ao longe, no horizonte distante e começando a iluminar a imensidão da planície descampada. Nada além de terras vazias e desprovidas de qualquer forma de vida, até onde os olhos podiam enxergar. Uma fina camada de gelo recobria o solo árido, refletindo o frio da noite anterior. O antigo guerreiro de asas negras arrastava-se solitário e reflexivo, em direção ao sol nascente. Assim vinha se orientando durante toda a sua atual vida. Qual mariposa desgarrada que se orienta seguindo a lua, ele o fazia, perseguindo dia após dia, o astro-rei.
Carregava, embainhada na cintura, a espada, cuja lâmina maculava-se com o sangue coagulado e pútrido de seus inimigos. Sua armadura, outrora prateada e lustrosa, agora se ressentia, amassada e suja de terra e sangue. De terras distantes e do sangue dos inimigos e amigos, mortos brutalmente em uma cruel e sangrenta batalha. Todos se foram. Sozinho ficara. Sim, era o único remanescente de seu povo. E agora rumava decidido ao encontro da derradeira batalha. A última a ser travada em sua breve vida. E a Morte, aquela inexorável e sombria dama revestida de negras roupagens e sua implacável foice o rondavam, dançando ao seu redor e zombando do triste fim a que estava condenado.
O triste fim de não ter um fim.
As melancólicas lembranças dos gritos de horrores que emergiam das profundezas viscerais das pessoas com as quais convivera a sua vida inteira permaneciam gravadas em sua memória. Gerações inteiras surgiram e desapareceram, enquanto seguia amaldiçoado a vagar pela superfície de um mundo infestado de necroses e morte, dor e sofrimento, situado além das leis de imposição do tempo e do espaço, sem que jamais conseguisse alcançar o seu momento final, sem que pudesse receber o seu merecido descanso.
Embora muitos contestassem tal afirmação, a vida eterna, pelo menos para ele, não era uma dádiva. Mas uma terrível maldição, em que a morte não era encarada como um ato nefasto, e sim, a almejada conclusão de um ciclo, ao qual, todos eram destinados. Todos os que um dia o guerreiro alado amou e agora se foram, ceifados do tabuleiro, definitiva e inexoravelmente excluídos do jogo. Todos menos ele. Um ciclo completo que se findava a cada nova geração. Ao princípio, a solidão parecia atraente, tornando-se, em determinados momentos, uma excelente e aprazível companheira. Entretanto, quando se permanece por um longo período na solidão, descobre-se que esta pode se tornar demasiado monótona.
Imerso apenas em seus próprios pensamentos, a loucura se encontrava atrás de cada porta, de cada pedra ou árvore por onde ele andejava. Passou, então, a ansiar pelo fim de sua própria existência. Que a sua combalida consciência deixasse de existir. E, com ela, toda dor e sofrimento, impostos pela inevitável e sádica passagem do tempo.
Andando pelo gélido deserto, acompanhado das três damas que todo ser vivo teme: a Morte, a Loucura e a Solidão, três irmãs que, fatal e infalivelmente, conduzem ao mesmo caminho, não tardaria para o guerreiro atingir o primeiro patamar rumo aos seus objetivos de vingança. Finalmente, a ansiada paz poderia ser alcançada. Porém, para isso, sangue culpado e também inocente deveria ser derramado, uma vez que em batalhas como a que estava prestes a travar, não existiam inocentes. Todos eram culpados, portanto, mereciam ser executados!
De repente, a voz da consciência emerge na obscurecida mente do guerreiro andante e o faz perceber que, por inúmeras vezes, as pessoas em geral, deixam-se levar, seguindo as caudalosas correntes da vida, guiadas por pensamentos fantasiosos, quase sempre forjados pelos próprios erros e experiências. Com ele não havia sido diferente. Apenas acompanhava o curso do tenebroso Rio Destino. Sofrimento e dor foram elementos sempre presentes em sua desgraçada vida, mas agora tudo isso estava prestes a mudar. Assim seguia o guerreiro, refletindo sobre sua jornada terrena, consciente de que a sua única certeza era a vingança.
* * * * *
Muito tempo antes...
Uma sangrenta guerra inter-racial entre anjos e demônios corria solta, devastando o mundo em que ambos viviam. Ninguém mais lembrava como havia começado. Ninguém se importava. O sangue e a espada, o ódio e a lança falavam mais alto. A guerra já se estendia por incontáveis séculos, dizimando ambas as raças até que restassem somente uns poucos milhares de soldados em cada facção. E, intencionados em ultimá-la, os demônios haviam iniciado uma gigantesca ofensiva contra o território dos anjos. A batalha fora terrível e só uns poucos representantes celestiais haviam sobrevivido às hordas do mal.
Foi ao raiar de uma manhã ensolarada. O acampamento dos anjos ainda dormia quando foi subitamente invadido e totalmente dizimado. Os anjos nada puderam fazer para impedir que as suas mulheres e crianças fossem chacinadas. Ninguém foi poupado.
Após derrotar o inimigo em mais uma violenta batalha em terras distantes e vencer a distância da longa viagem através das montanhas e vales, acompanhado de seu batalhão, o líder da gloriosa raça dos anjos, Salahtiel, finalmente alcançou os limites do acampamento-cidade de seu povo. E o que contemplou, remeteu-o, no mesmo instante, às profundezas do mais nefasto e cruel Inferno. O terreno, outrora composto por exuberantes campos dourados de trigo, dançando acariciados pelos doces ventos e entremeados por límpidos córregos de água cristalina, no momento, era uma terra enegrecida pelo fogo, que ainda mantinha a sua fumaça estagnada no ambiente. Uma névoa obscura que pairava a pouca altura, tentando inutilmente ocultar os horrores da guerra. Uma devastadora e nefanda guerra...
Cadáveres, de anjos e demônios, jaziam espalhados por todas as partes, entremeados por um verdadeiro mar de sangue e vísceras. O dourado do trigo ressentia-se de vermelho e azul. O sangue dos demônios e o dos anjos. Corpos mutilados, estraçalhados, despedaçados. Vidas abreviadas. Sonhos interrompidos.
O ódio tomou conta dos recém chegados. E um incontrolável desejo de vingança foi crescendo dentro de cada anjo ali presente. Ainda era possível ouvirem o som lamuriante e desesperado dos desafortunados compatriotas moribundos, lutando para se manterem vivos.
E, completamente obliterados pelo ódio e pelo desejo de reparação do mal, partiram ao encalço do inimigo. Não tardou para avistarem-no. Ao comando de Salahtiel, o batalhão angelical dividiu-se em dois grupos. E, separados, simultaneamente arremeteram-se sobre o amaldiçoado exército demoníaco, cercando-o, prontos para atacarem pelos flancos, como as pontas de um alicate que se fecham sobre o dente a fim de extraí-lo.
Munidos de seus enormes escudos retangulares, espadas, arcos e lanças empunhadas, avançaram sobre a terra queimada e caíram ferozes sobre as tropas infernais. O embate que se seguiu foi cruel e desigual. Eram apenas cem anjos contra milhares de demônios. Mesmo assim, ao final do embate, todos os soldados do Inferno, sem exceção, haviam tombado sob as lâminas azuladas das armas angelicais. E, só então, Salahtiel percebeu que todos os anjos também. Só ele havia sobrevivido. O último representante de sua raça.
Foi quando ouviu um gemido curto e abafado aos seus pés, seguido de mortiça voz. Era o líder daquele batalhão de demônios, conjurando uma maldição contra ele. Trespassou o coração do sujeito, mas não evitou o mal conjurado.
Desde então, ele que não tinha mais razões para viver, tornara-se imortal.
Imortal e solitário. Imortal e infeliz.
* * * * *
De volta ao deserto...
Acabara de eliminar o último representante da raça dos demônios e agora partia em busca do próprio destino. A última batalha estava prestes a ser travada.
Gerações e gerações haviam transcorrido desde que fora amaldiçoado pelo líder dos demônios. Condenado a vagar até os confins do mundo caçando àqueles que haviam trazido a desgraça ao seu povo.
Para ele, tão amplamente condecorado no passado pelas vitórias dos anjos, medalhas não mais possuíam valor. A única medalha que Salahtiel desejava era a da redenção.
Redenção só possível de ser alcançada com a Morte. E esta, para ele era impossível e inalcançável. Contudo, restava uma vã esperança. Uma remota chance de mudar os inexoráveis rumos do destino.
Chegou a um desfiladeiro que desembocava num precipício que não se podia ver o fundo de tão escuro e insondável que era. Aproximou-se da beirada e espiou. Só viu trevas e escuridão. Hesitou, lembrando-se do seu povo, dos parentes, amigos e companheiros de armas, da mulher e dos filhos mortos durante a invasão ao acampamento-cidade.
Só teria uma oportunidade. Se falhasse, tudo estaria perdido. Inspirou profundamente, procurando reunir a coragem necessária. Fechou os olhos e, sem medir as conseqüências dos seus atos, avançou para o vazio, sendo engolido por ele.
* * * * *
Porém, algo deu errado. E, ao acordar, Salahtiel percebeu que não só não havia morrido, como se encontrava agora, em outro tempo e noutro mundo, habitado por criaturas inferiores, primitivas e frágeis, carentes de alguém que as auxiliasse em sua evolução. Compreendeu que ele era o guia e que guiá-las seria o seu castigo eterno. Resolveu, então, fazê-lo pelas sombras. E, ato contínuo, alterou o próprio nome, por outro, mais condizente com a sua nova condição de portador e guardião da luz, além de carrasco dos ímpios e dos de má índole.
E, desde então, Lúcifer, o anjo caído, vive entre nós...
Marius Arthorius
“Quem esquece os erros do passado, está fadado a repeti-los.”
O sol iniciava a sua atividade, surgindo ao longe, no horizonte distante e começando a iluminar a imensidão da planície descampada. Nada além de terras vazias e desprovidas de qualquer forma de vida, até onde os olhos podiam enxergar. Uma fina camada de gelo recobria o solo árido, refletindo o frio da noite anterior. O antigo guerreiro de asas negras arrastava-se solitário e reflexivo, em direção ao sol nascente. Assim vinha se orientando durante toda a sua atual vida. Qual mariposa desgarrada que se orienta seguindo a lua, ele o fazia, perseguindo dia após dia, o astro-rei.
Carregava, embainhada na cintura, a espada, cuja lâmina maculava-se com o sangue coagulado e pútrido de seus inimigos. Sua armadura, outrora prateada e lustrosa, agora se ressentia, amassada e suja de terra e sangue. De terras distantes e do sangue dos inimigos e amigos, mortos brutalmente em uma cruel e sangrenta batalha. Todos se foram. Sozinho ficara. Sim, era o único remanescente de seu povo. E agora rumava decidido ao encontro da derradeira batalha. A última a ser travada em sua breve vida. E a Morte, aquela inexorável e sombria dama revestida de negras roupagens e sua implacável foice o rondavam, dançando ao seu redor e zombando do triste fim a que estava condenado.
O triste fim de não ter um fim.
As melancólicas lembranças dos gritos de horrores que emergiam das profundezas viscerais das pessoas com as quais convivera a sua vida inteira permaneciam gravadas em sua memória. Gerações inteiras surgiram e desapareceram, enquanto seguia amaldiçoado a vagar pela superfície de um mundo infestado de necroses e morte, dor e sofrimento, situado além das leis de imposição do tempo e do espaço, sem que jamais conseguisse alcançar o seu momento final, sem que pudesse receber o seu merecido descanso.
Embora muitos contestassem tal afirmação, a vida eterna, pelo menos para ele, não era uma dádiva. Mas uma terrível maldição, em que a morte não era encarada como um ato nefasto, e sim, a almejada conclusão de um ciclo, ao qual, todos eram destinados. Todos os que um dia o guerreiro alado amou e agora se foram, ceifados do tabuleiro, definitiva e inexoravelmente excluídos do jogo. Todos menos ele. Um ciclo completo que se findava a cada nova geração. Ao princípio, a solidão parecia atraente, tornando-se, em determinados momentos, uma excelente e aprazível companheira. Entretanto, quando se permanece por um longo período na solidão, descobre-se que esta pode se tornar demasiado monótona.
Imerso apenas em seus próprios pensamentos, a loucura se encontrava atrás de cada porta, de cada pedra ou árvore por onde ele andejava. Passou, então, a ansiar pelo fim de sua própria existência. Que a sua combalida consciência deixasse de existir. E, com ela, toda dor e sofrimento, impostos pela inevitável e sádica passagem do tempo.
Andando pelo gélido deserto, acompanhado das três damas que todo ser vivo teme: a Morte, a Loucura e a Solidão, três irmãs que, fatal e infalivelmente, conduzem ao mesmo caminho, não tardaria para o guerreiro atingir o primeiro patamar rumo aos seus objetivos de vingança. Finalmente, a ansiada paz poderia ser alcançada. Porém, para isso, sangue culpado e também inocente deveria ser derramado, uma vez que em batalhas como a que estava prestes a travar, não existiam inocentes. Todos eram culpados, portanto, mereciam ser executados!
De repente, a voz da consciência emerge na obscurecida mente do guerreiro andante e o faz perceber que, por inúmeras vezes, as pessoas em geral, deixam-se levar, seguindo as caudalosas correntes da vida, guiadas por pensamentos fantasiosos, quase sempre forjados pelos próprios erros e experiências. Com ele não havia sido diferente. Apenas acompanhava o curso do tenebroso Rio Destino. Sofrimento e dor foram elementos sempre presentes em sua desgraçada vida, mas agora tudo isso estava prestes a mudar. Assim seguia o guerreiro, refletindo sobre sua jornada terrena, consciente de que a sua única certeza era a vingança.
* * * * *
Muito tempo antes...
Uma sangrenta guerra inter-racial entre anjos e demônios corria solta, devastando o mundo em que ambos viviam. Ninguém mais lembrava como havia começado. Ninguém se importava. O sangue e a espada, o ódio e a lança falavam mais alto. A guerra já se estendia por incontáveis séculos, dizimando ambas as raças até que restassem somente uns poucos milhares de soldados em cada facção. E, intencionados em ultimá-la, os demônios haviam iniciado uma gigantesca ofensiva contra o território dos anjos. A batalha fora terrível e só uns poucos representantes celestiais haviam sobrevivido às hordas do mal.
Foi ao raiar de uma manhã ensolarada. O acampamento dos anjos ainda dormia quando foi subitamente invadido e totalmente dizimado. Os anjos nada puderam fazer para impedir que as suas mulheres e crianças fossem chacinadas. Ninguém foi poupado.
Após derrotar o inimigo em mais uma violenta batalha em terras distantes e vencer a distância da longa viagem através das montanhas e vales, acompanhado de seu batalhão, o líder da gloriosa raça dos anjos, Salahtiel, finalmente alcançou os limites do acampamento-cidade de seu povo. E o que contemplou, remeteu-o, no mesmo instante, às profundezas do mais nefasto e cruel Inferno. O terreno, outrora composto por exuberantes campos dourados de trigo, dançando acariciados pelos doces ventos e entremeados por límpidos córregos de água cristalina, no momento, era uma terra enegrecida pelo fogo, que ainda mantinha a sua fumaça estagnada no ambiente. Uma névoa obscura que pairava a pouca altura, tentando inutilmente ocultar os horrores da guerra. Uma devastadora e nefanda guerra...
Cadáveres, de anjos e demônios, jaziam espalhados por todas as partes, entremeados por um verdadeiro mar de sangue e vísceras. O dourado do trigo ressentia-se de vermelho e azul. O sangue dos demônios e o dos anjos. Corpos mutilados, estraçalhados, despedaçados. Vidas abreviadas. Sonhos interrompidos.
O ódio tomou conta dos recém chegados. E um incontrolável desejo de vingança foi crescendo dentro de cada anjo ali presente. Ainda era possível ouvirem o som lamuriante e desesperado dos desafortunados compatriotas moribundos, lutando para se manterem vivos.
E, completamente obliterados pelo ódio e pelo desejo de reparação do mal, partiram ao encalço do inimigo. Não tardou para avistarem-no. Ao comando de Salahtiel, o batalhão angelical dividiu-se em dois grupos. E, separados, simultaneamente arremeteram-se sobre o amaldiçoado exército demoníaco, cercando-o, prontos para atacarem pelos flancos, como as pontas de um alicate que se fecham sobre o dente a fim de extraí-lo.
Munidos de seus enormes escudos retangulares, espadas, arcos e lanças empunhadas, avançaram sobre a terra queimada e caíram ferozes sobre as tropas infernais. O embate que se seguiu foi cruel e desigual. Eram apenas cem anjos contra milhares de demônios. Mesmo assim, ao final do embate, todos os soldados do Inferno, sem exceção, haviam tombado sob as lâminas azuladas das armas angelicais. E, só então, Salahtiel percebeu que todos os anjos também. Só ele havia sobrevivido. O último representante de sua raça.
Foi quando ouviu um gemido curto e abafado aos seus pés, seguido de mortiça voz. Era o líder daquele batalhão de demônios, conjurando uma maldição contra ele. Trespassou o coração do sujeito, mas não evitou o mal conjurado.
Desde então, ele que não tinha mais razões para viver, tornara-se imortal.
Imortal e solitário. Imortal e infeliz.
* * * * *
De volta ao deserto...
Acabara de eliminar o último representante da raça dos demônios e agora partia em busca do próprio destino. A última batalha estava prestes a ser travada.
Gerações e gerações haviam transcorrido desde que fora amaldiçoado pelo líder dos demônios. Condenado a vagar até os confins do mundo caçando àqueles que haviam trazido a desgraça ao seu povo.
Para ele, tão amplamente condecorado no passado pelas vitórias dos anjos, medalhas não mais possuíam valor. A única medalha que Salahtiel desejava era a da redenção.
Redenção só possível de ser alcançada com a Morte. E esta, para ele era impossível e inalcançável. Contudo, restava uma vã esperança. Uma remota chance de mudar os inexoráveis rumos do destino.
Chegou a um desfiladeiro que desembocava num precipício que não se podia ver o fundo de tão escuro e insondável que era. Aproximou-se da beirada e espiou. Só viu trevas e escuridão. Hesitou, lembrando-se do seu povo, dos parentes, amigos e companheiros de armas, da mulher e dos filhos mortos durante a invasão ao acampamento-cidade.
Só teria uma oportunidade. Se falhasse, tudo estaria perdido. Inspirou profundamente, procurando reunir a coragem necessária. Fechou os olhos e, sem medir as conseqüências dos seus atos, avançou para o vazio, sendo engolido por ele.
* * * * *
Porém, algo deu errado. E, ao acordar, Salahtiel percebeu que não só não havia morrido, como se encontrava agora, em outro tempo e noutro mundo, habitado por criaturas inferiores, primitivas e frágeis, carentes de alguém que as auxiliasse em sua evolução. Compreendeu que ele era o guia e que guiá-las seria o seu castigo eterno. Resolveu, então, fazê-lo pelas sombras. E, ato contínuo, alterou o próprio nome, por outro, mais condizente com a sua nova condição de portador e guardião da luz, além de carrasco dos ímpios e dos de má índole.
E, desde então, Lúcifer, o anjo caído, vive entre nós...
Marius Arthorius
Insânia
Olhe em algum relógio, que horas são? Em seu colo ele carrega um afiado machado. Quantos já não provaram deste metal gelado. Cada dia uma ferramenta, cada dia uma vida que ele atormenta. Viajando de cidade em cidade, sempre durante a noite. Mas ele não é um vampiro e nem nada sobrenatural, é muito pior, é humano, Homo sapiens. Ele sabia e ainda sabe que a realidade pode ser bem mais cruel que a ficção da imaginação. Ele nem se lembra quando começou com esta carnificina toda. Só se lembra que o gosto é bom e a carne é macia. Ele apenas gosta do escuro, com tantos recantos obscuros para esconder e observar, finalmente matar. Que horas são? Falta pouco, muito pouco. Ele só quer saciar a sua fome, o estômago está inquieto. E a imaginação voa rapidamente.
Se o populacho quer cerveja e futebol, ele quer sangue e dor. Como qualquer outro, um fanático espectador. Buscando pelo seu pão e seu circo. O desejo de todo povo! Preferem escapar da realidade, deixarem o governo manipulá-los, mas não trocam seu pão e seu circo por nada. E ele também busca sua diversão. Onde ele está? Está em sua cidade. Estripando e devorando algum desavisado. Bebendo sangue em cálice de ouro e comendo carne bem passada, cuidadosamente preparada. E muito bem temperada. Pode ser que ele esteja do outro lado da porta de sua casa ou te observando pela janela. Experimentando teu cheiro, excitando-se com tua face de medo e horror. Que horas são? Hora de comer! Ele está com muita fome. Anseia por esquartejar teu corpo, enquanto você grita e se contorce em agonia, chamando pela sua deidade, apenas para saber que nenhuma ajuda virá para atender suas preces.
Ele quer seu sangue doce como mel. Amarrar você e rasgar sua pele e tingir-se com o vermelho de teu sangue. Não chores, talvez ele arranque alguns de seus dentes para confeccionar um colar que poderá ser enviado de lembrança para seus familiares. Seu crânio enfeitará a estante dele, segurando alguns livros sobre anatomia humana e culinária. Que horas são? Hora de você sofrer, é hora de você morrer. Com o machado você conhecerá o real significado da palavra dor. Tu verás teus ossos sendo partidos com violência e precisão. Tu descobrirás que em apenas alguns minutos uma pessoa pode desejar estar morta há anos ou desejar nunca ter nascido. E você será a refeição perfeita, ninguém sentirá tua falta, pois em tua vida, tu foste apenas mais um na multidão. Tu que anseias pelo sangue destas palavras! Tu serás o grande banquete!
Que horas são? Quem é ele? Tu ainda me perguntas? Pergunta-me e eu te pergunto, todos tem perguntas? Se não queres pergunta, cale-se e diga “amém”. Ele é eu e eu sou ele. Apesar de que não me lembro dele. Nada fora do normal e agora? Venha para fora! Deixe-me terminar, sim, terminar de afiar meu lindo machado para te cortar, abastecer o carro e comprar os temperos. Eu quero você e ele quer você, porque eu sou ele e ele sou eu ou ele é eu? Quem se importa? Esta será tua última preocupação! Espere-me em tua casa esta noite, mas espere-me de portas trancadas, assim podemos nos divertir um pouco antes do jantar. Estou salivando por sua imaculada carne, pensando em todos os pratos que prepararei para nosso jantar. Estou nervosamente ansiando com a expectativa de te comer (literalmente).
Marius Arthorius
Se o populacho quer cerveja e futebol, ele quer sangue e dor. Como qualquer outro, um fanático espectador. Buscando pelo seu pão e seu circo. O desejo de todo povo! Preferem escapar da realidade, deixarem o governo manipulá-los, mas não trocam seu pão e seu circo por nada. E ele também busca sua diversão. Onde ele está? Está em sua cidade. Estripando e devorando algum desavisado. Bebendo sangue em cálice de ouro e comendo carne bem passada, cuidadosamente preparada. E muito bem temperada. Pode ser que ele esteja do outro lado da porta de sua casa ou te observando pela janela. Experimentando teu cheiro, excitando-se com tua face de medo e horror. Que horas são? Hora de comer! Ele está com muita fome. Anseia por esquartejar teu corpo, enquanto você grita e se contorce em agonia, chamando pela sua deidade, apenas para saber que nenhuma ajuda virá para atender suas preces.
Ele quer seu sangue doce como mel. Amarrar você e rasgar sua pele e tingir-se com o vermelho de teu sangue. Não chores, talvez ele arranque alguns de seus dentes para confeccionar um colar que poderá ser enviado de lembrança para seus familiares. Seu crânio enfeitará a estante dele, segurando alguns livros sobre anatomia humana e culinária. Que horas são? Hora de você sofrer, é hora de você morrer. Com o machado você conhecerá o real significado da palavra dor. Tu verás teus ossos sendo partidos com violência e precisão. Tu descobrirás que em apenas alguns minutos uma pessoa pode desejar estar morta há anos ou desejar nunca ter nascido. E você será a refeição perfeita, ninguém sentirá tua falta, pois em tua vida, tu foste apenas mais um na multidão. Tu que anseias pelo sangue destas palavras! Tu serás o grande banquete!
Que horas são? Quem é ele? Tu ainda me perguntas? Pergunta-me e eu te pergunto, todos tem perguntas? Se não queres pergunta, cale-se e diga “amém”. Ele é eu e eu sou ele. Apesar de que não me lembro dele. Nada fora do normal e agora? Venha para fora! Deixe-me terminar, sim, terminar de afiar meu lindo machado para te cortar, abastecer o carro e comprar os temperos. Eu quero você e ele quer você, porque eu sou ele e ele sou eu ou ele é eu? Quem se importa? Esta será tua última preocupação! Espere-me em tua casa esta noite, mas espere-me de portas trancadas, assim podemos nos divertir um pouco antes do jantar. Estou salivando por sua imaculada carne, pensando em todos os pratos que prepararei para nosso jantar. Estou nervosamente ansiando com a expectativa de te comer (literalmente).
Marius Arthorius
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