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quinta-feira, 11 de junho de 2015
sexta-feira, 6 de setembro de 2013
Conto: Nunca irrite um escritor
Conto: Nunca irrite um escritor
Este conto faz parte livro Deicídio, de Marius Arthorius, e possui registro de direitos autorais junto à Fundação Biblioteca Nacional seu uso total ou parcial para qualquer finalidade comecial ou não, sem autorização do autor implicará em medidas cabíveis previstas em Lei.
Este conto faz parte livro Deicídio, de Marius Arthorius, e possui registro de direitos autorais junto à Fundação Biblioteca Nacional seu uso total ou parcial para qualquer finalidade comecial ou não, sem autorização do autor implicará em medidas cabíveis previstas em Lei.
- Aqueles malditos, como poderiam eles
compreender a grandiosidade de meu trabalho? Eu precisava de paz e sossego,
aquela algazarra toda só atrapalhava minha concentração. Agora eu tenho esse
lindo silêncio que me envolve e me acolhe. Posso realizar minha grande obra sem
perder o rumo certo. O quê eu posso dizer? Algumas vezes precisamos tomar uma
atitude um pouco mais agressiva, avançar algumas regras antes que um mal maior
aconteça. Se para existir paz é necessário usar a força, se é isso que ocorre
ao redor de todo o mundo, aqui também não foi tão diferente. Aqueles seres
malditos, inferiores por sua natureza precisavam aprender uma lição. Eu como um
bom escritor, estando inúmeros patamares acima deles em conhecimento precisei
tomar as rédeas e parar aquele estouro de boiada.
. .
.
Um dia antes...
- Pequenas crianças, pequenas crianças,
cordeirinhos e cordeirinhos, aí vai o lobo mal. Vocês podem correr e correr,
mas nunca conseguirão se esconder. – O cabelo desarrumado atrapalhava sua
visão, o suor escorria pelo rosto e pelo pescoço, com a marreta suja de sangue
e presa firmemente em suas mãos ele procurava seu alvo. Havia dias que ele
queria apenas sentar-se ou deitar-se em algum recanto de sua casa para terminar
mais um livro que ele estava escrevendo, apenas mais um livro a ser registrado
e publicado, mas sem leitores, ninguém além do próprio autor leria aquelas
páginas. Há anos ele já cultivava o pensamento de que escrevia para si mesmo,
sem se importar em ter um público alvo e sem querer qualquer tipo de lucro com
suas obras. Ele apenas escrevia, era isso, mais nada.
Nos últimos dias ele tinha cansado da
baderna infernal criada pelos vizinhos que se afogavam em bebidas, música de má
qualidade e promiscuidade. Cansou de todos os xingamentos de baixo calão, do
sexo explícito nos quintais e varandas das casas, cansou das músicas, do cheiro
de vômito alcoólico. Cansou de tudo.
Ele não queria mais ser pisoteado por
pessoas que não possuem uma cultura própria e que vivem de seguir as ondas da
moda com carros enfeitados com inúmeras caixas de som produzindo sons
desconexos, homens e mulheres deformados por anabolizantes e cirurgias
plásticas. Ele mostraria que estas pessoas estavam enganadas, que elas não eram
superiores. A raiva mostraria sua supremacia diante do modismo. A atual festa
tinha ocorrido em sua casa, rodeada por altos muros e portões trancados a sete
chaves, os sobreviventes tinham tentado inutilmente se esconder em algum
recanto da casa.
Passando pela sala e ainda ofegando com
a adrenalina de alguns assassinatos cometidos ele se aproximou do aparelho de
som para mudar a música. Tirou aquelas malditas batidas remixadas e letras de
música sem sentimento. Colocou para tocar um CD com um heavy metal de
vozes guturais e acordes desconexos que o faziam delirar por todos os recantos
de sua imaginação. Fechou os olhos e inspirou profundamente erguendo levemente
a cabeça e os ombros, após, sorriu.
Foi quando atrás de si apareceu uma
mulher jovem apenas de biquíni, tremendo com o frio noturno, chorando com
secreções escorrendo de seu nariz.
- Por favor, por favor, não me mate!
Perdoe-me por ter jogado seus livros na churrasqueira, foi errado, mas era
apenas uma brincadeira basta comprar outros. Você não pode passar a vida
inteira apenas lendo e escrevendo, você tem que curtir a vida! Por favor, não
me mate, eu faço qualquer coisa! – disse a mulher se ajoelhando no chão com as
mãos entrelaçadas em preces inúteis.
- Curtir a vida? Foi isso que você
disse? Quem é você para me dizer como eu tenho que viver? Sua pequena
formiguinha, pequena formiguinha, é isso que você é. Nada mais, apenas serve os
objetivos da colônia, vive aos moldes da colônia. Sabe, eu gosto de formigas,
admiro muito a organização delas e o fato de não precisarem pensar muito.
Apenas seguirem seus comportamentos pré-determinados e sempre ditados por
alguma autoridade. Só que há um problema, quando uma formiga me morde, eu a
elimino. É um instinto defensivo, fazer o quê. E você me mordeu dolorosamente
formiguinha. Você desprezou meus livros, minhas leituras e meus escritos! Todos
vocês têm desprezado meus escritos, vocês são pedras no caminho, impedem que eu
viva minha própria vida. Pensam que são superiores demais, mas veja só você
aqui. Ajoelhando-se diante de mim e ainda assim querendo me ensinar a viver.
Você nunca saberá nada sobre a vida, você é apenas uma formiguinha promíscua.
Você faz qualquer coisa é? Então se deite de bruços e fique com o seu rosto
voltado para o chão.
- Sim, sim, qualquer coisa para não
morrer! - respondeu eufórica a mulher
enquanto deitava-se obedecendo as ordens.
Ele se aproximou dela, inclinou levemente
sua cabeça para a direita observando-a, segurava a marreta ensanguentada com a
mão direita, deixando um rastro de gotas vermelhas no piso branco da casa. Ele
segurou a ferramenta com as duas mãos, ergueu-a no ar e a fez descer
violentamente contra o crânio da mulher. Lacerando os ossos, fazendo um som de
madeira sendo quebrada entrar em contraste com o heavy metal e sangue
escorreu sobre o chão.
Ele se abaixou usando a marreta como
apoio, olhou dentro do crânio perfurado e sorriu.
- Esmaguei sua pequena cabecinha,
senhora formiguinha. – falou ele fazendo uma voz e uma careta infantil,
imitando uma criança que se diverte com um presente recém recebido - E veja,
sua cabeça é oca! Como eu imaginei. Sabe formiguinha, hoje meu objetivo de vida
era apenas esse. Esmagar suas pequenas cabecinhas vazias e inúteis. Pelo menos
como adubo vocês servirão para alguma coisa não é? – disse ele gargalhando e
caindo sentado, não conseguindo conter seu ataque de risos. – Vocês
desrespeitaram meus pequenos e amados livros, os mataram com o fogo infernal de
sua maldita festa, fazendo isso vocês destruíram uma parte de mim. Acabaram com
a maior parte do meu “eu”, com a minha existência. Assim sendo, só me restou a
vingança, pois todos cometeriam vingança em prol de quem eles amam! –
Levantou-se e acertou mais doze marretadas no corpo da mulher. Costelas, braços
e pernas foram quebrados. – Uma morte deformada para você! Que tanto deformou a
minha vida!
. .
.
Três horas antes...
Fogo flamejava fortemente na
churrasqueira de tijolos, as gargalhadas alcoólicas ecoavam pelo ar noturno.
Uma névoa pairava sobre o ar gélido que fazia todos os seres urbanos se
esconderem em algum recanto aquecido.
- Ei! Seu escritor! Legal você
finalmente fazer uma festa para nós. Pena que você fica só com essa conversa
ridícula sobre como viver e como realmente tornar a vida útil. – Falou um ser
arrogante embriagado e tomando cerveja com canudinhos. – Mas isso aqui pode
ficar melhor sabe. Temos todas as mulheres e as cervejas, mas o fogo ainda está
baixo.
- Precisamos queimar alguma coisa! –
respondeu outro gargalhando.
- Já sei! – Respondeu o primeiro. –
Vamos, me ajudem, segurem o doutor escritor!
- O quê? – Indagou o escritor, enquanto
outros quatro o seguravam ele deitado no chão. Ele tentava se livrar deles, e
eles só o pressionavam ainda mais contra a grama molhada por cerveja.
O primeiro entrou na residência, seguido
por algumas mulheres, não tardou e retornaram com dezenas de livros em suas
mãos. O escritor arregalou os olhos, assustado por ver sua progênie de papel
sendo tratada com tanta falta de educação, seus olhos se encheram de lágrimas,
seu rosto ficou vermelho de raiva com veias dilatas enquanto ele gritava
desesperadamente tentando salvar seus amigos de todas as horas.
- Qual é problema escritor, é apenas um
monte de papel velho e empoeirado, você pode viver sem isso. – Disse sorrindo
sarcasticamente uma mulher que já ia arrancando as páginas dos livros e
jogando-as no fogo.
- Cale-se! Você não sabe o que diz, você
não sabe o que faz! Soltem-me! Parem com isso! – Berrou o escritor. O fogo
iluminava a escuridão tornando-se cada vez mais intenso, conforme mais e mais
livros eram adicionados àquela fornalha demoníaca. Quando o genocídio literário
estava encerrado, acertaram um soco na boca do estômago do escritor, despejaram
cerveja sobre ele e o deixaram caído no chão. Sendo xingado por todos ali
presentes que o desprezavam por não agir como as grandes massas.
O escritor levantou-se tremendo de
raiva, perdera todos os bens materiais mais valiosos que ele possuía. Foi até
os portões da sua casa, trancou todos eles e escondeu as chaves, depois se
dirigiu até o seu porão, não sabia ao certo o que faria, nem o que procurava.
Talvez ele quisesse transformar em realidade algum de seus contos de terror,
aquele som remixado e os berros daquelas mulheres o deixavam ainda mais
irritado. Aqueles malditos que o surraram e o torturaram com a destruição de
seus bens precisariam pagar. Ele já tinha muito desgosto acumulado em sua vida,
livros não vendidos, ausência de leitores, algumas de suas obras haviam tido a
participação negada em antologias e editoras. Tudo parecia estar vindo à tona
naquele instante. Todos sentiriam a dor que ele vinha sentindo há muitos anos.
Então ele viu num canto de seu porão aquela marreta. Foi até ela e segurou-a
firmemente, como se aquela ferramenta passasse alguma forma de energia e força
para ele, funcionando como um talismã.
Saiu do porão para o interior da sua
casa, uma mulher estava indo nua para o banheiro enquanto vomitava pelo chão da
casa todas as bebidas alcoólicas que ela havia tomado. Ela estava drogada com
álcool, afinal seja lícita ou ilícita, drogas são todas iguais, apenas uma
forma das pessoas temerosas escaparem um pouco da realidade. Ele caminhou até
ela.
- Você está bem? – Perguntou ele.
Ela virou-se sorrindo para ele, toda a
parte frontal do corpo dela e os cabelos estavam sujos com vômito amarelado. O
escritor se enojou daquelas pessoas ainda mais tendo essa visão diante de si.
Num chute jogou-a para dentro do banheiro, entrou e trancou-se lá com ela. A
mulher tentava se levantar do chão, segurando o corte que se formou na testa
quando com o chute ela bateu com a cabeça na pia. Sangue escorria na lateral
esquerda do rosto dela.
A luz fluorescente iluminava os pisos
pretos e brancos do banheiro. O escritor ficou de pé sobre o vaso sanitário, a
mulher estava sentada no chão diante dele.
- Cara – disse a mulher – saia do vaso
sanitário, eu preciso vomitar.
- É claro! – respondeu o escritor,
segurando a marreta com a mão direita e apoiando-a atrás do pescoço,
curvando-se levemente para a frente com um sorriso no rosto e coçando o próprio
queixo com a mão livre – Responda-me algo antes, você já jogou golfe? Eu nunca
joguei. Mas no momento eu tive uma vontade incrível de conhecer esse jogo.
Incrível ver aquela linda bolinha branca voando pelos ares após ser golpeada
pelo taco rígido de metal!
- Nunca joguei, cara, agora me deixa
vomitar em paz.
- É claro, senhorita
tudo-que-eu-quero-é-vomitar! Apenas me deixe terminar a minha partida de golfe
e você poderá fazer o que você quiser. – Ele retirou a marreta do pescoço,
segurou-a como se segura um taco de golfe, posicionando ao lado da cabeça da
mulher, calculando a jogada como um jogador profissional. Ela alternava olhares
entre a marreta e o vaso sanitário. Quando a última coisa que ela viu foi a
marreta indo violentamente contra a lateral de seus crânio, arremessando-a para
o lado, um pedaço de crânio bateu contra o vidro da janela, ricocheteou contra
a parede e caiu dentro da pia. – Viu só senhorita! Ponto para mim! Acertei a
minha jogada! Quem é o melhor agora?
. .
.
Tempo atual...
E assim, pessoa após pessoa, eu fui
mostrando para aquelas formiguinhas como um escritor em fúria pode ser superior
a eles. Ah! Sim! Eu escrevia melhor do que eles, eu vivia melhor do que eles e
quem diria, ninguém naquela festa jogava golfe como eu! Quantas cabeças voaram
como pequenas e lindas bolinhas brancas! Foi uma noite emocionante, exceto pela
perda de minhas preciosidades literárias.
Eles pensaram que nós escritores vivemos
apenas em nossas imaginações, afogando-se em letras e frases. Dizem que
perdemos nosso tempo, que ficaremos loucos de tanto ler e escrever. Afirmam que
isso não é aproveitar a vida, o que sabem eles sobre isso? Nós, escritores, ao
menos deixaremos alguma contribuição útil para as futuras gerações, tentamos
fazer algo para melhorar a cultura pútrida de nossa sociedade e ninguém joga
golfe com crânios tão bem quanto nós! Ah! Sim! Isso não há como discordar!
Aqueles cordeirinhos, mal sabem o lobo
que há cá dentro. Agora veja, todos esses corpos estendidos em meu quintal com
seus crânios estourados, bastou uma leve batida de marreta para espalhar massa
encefálica por todos os lados. Eles destruíram uma parte significativa da minha
vida, a transformaram em cinzas, só me resta agora queimar esses corpos,
destruí-los como eles destruíram meus livros. Eles irritaram um escritor e isso
é algo que ninguém deve fazer. Ou poderá sofrer as devidas consequências.
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domingo, 25 de agosto de 2013
A salsicha, o milho e a morte
"A salsicha, o milho e a morte" é um conto integrante do livro Necrophagya, de Marius Arthorius. Disponível em: http://clubedeautores.com.br/book/32051--NECROPHAGYA
Acordou com uma tremenda dor de cabeça, um gosto horrendo em sua boca, um
pedaço de casca de milho ainda presa entre os dentes, havia dormido no chão da
cozinha e nem mesmo se lembrava desse acontecimento. Sentou-se no chão, estava
nu, tal como veio ao mundo. Porém sua pele estava suja, coberta com uma
estranha e fétida substância marrom, algumas partes com um líquido vermelho. Um
longo verme esbranquiçado nadava para sobreviver em meio àquelas duas
substâncias. Levantou-se, no fraco reflexo que se formava no vidro da janela da
cozinha, conseguiu ver que sua boca estava toda suja com aquela substância
marrom. E vomitou, pois começava a se lembrar de tudo. Vomitou no chão da
cozinha e logo caiu sobre os próprios joelhos. Enquanto seu esôfago era
queimado pelo ácido estomacal diluído que lhe escapava pela boca e lágrimas lhe
vertiam dos olhos com o ardor.
. . .
Na noite anterior tudo estava tranquilo. Ele tinha convidado ela para
jantar em sua casa, apenas um cachorro-quente, molho vermelho com bastante cebola
e milho para acompanhar. Preparam juntos a refeição, o lindo casal de pombinhos
que preparavam juntos seu alimento. Sentaram-se a mesa e começaram a comer.
Discutiram Nietzsche, Popper, Sagan e Schopenhauer. Mas todo alimento chega ao
seu fim.
Havia ainda na panela apenas uma salsicha e uma porção de grãos de milhos
imersos no molho acebolado. Ambas as duas pessoas presentes na cozinha ainda
estavam tomadas de fome e os dois tentaram se apossar da última salsicha ao
mesmo tempo. Quando possuído de fome todo humano passa a ser dominado pelo
egoísmo adormecido de nosso caráter.
Ele e ela se entreolharam. Não era amor que havia em seus olhos, e sim, o
mais puro sentimento humano, o sentimento que pulsa constantemente nas
profundezas neurais de nossos pútridos encéfalos. Era o egoísmo que brilhava e
reluzia em seus olhos, querendo se tornar livre e dominar aqueles corpos,
extinguindo qualquer resquício de moralidade que pudesse existir na mente
daqueles macacos pelados. Pois bem sabemos que toda pessoa não passa de um
símio com poucos pelos.
Cada um fisgou a salsicha com seu garfo, e puxou para seu próprio lado.
Despedaçaram o estranho pedaço de carne rosada. Novamente se encararam. Urraram
uma para o outro como dois animais famélicos.
- Sou mulher – disse ela - Seja um bom cavalheiro e me deixe ficar com a
última salsicha.
Houve mais um momento de tensão entre os dois, tempo para que a razão
dominasse o egoísmo, ou, tempo para que o egoísmo planejasse alguma de suas
artimanhas. Tomado pelo feminismo radical que por vezes não prega a igualdade
entre os sexos e sim a dominação feminina sobre os homens, ele acabou por
entregar a última e tão preciosa salsicha para a sua companheira.
Ela pegou um pedaço de pão, colocou a salsicha arrebentada sobre ele,
despejou o resto de molho com cebola e milho. Devorou o cachorro-quente de
forma violenta, fazendo molho vermelho sujar sua camiseta. Incitava a delícia
da alimentação para deixar ele com mais vontade de possuir a valiosa salsicha.
Ela terminou de comer.
Após comer lambeu seus dedos e soltou um grotesco arroto.
Mas o cavalheirismo dele não demorou a ser tomado pelo egoísmo humano,
ele queria voltar atrás, queria mudar sua escolha. Queria mudar o passado e
usufruir seu livre-arbítrio. Ele tinha liberdade de escolha e faria uso dela,
mesmo que as consequências estivessem num ponto fora do alcance legislativo e
além da compreensão das mentes comuns.
Ele levantou-se e foi até a gaveta da pia, pegou uma faca. Voltou-se para
ela, que estava sentada de costas para ele. Andou até ela, pegou-a pelo
pescoço. Obrigou-a a deitar-se sobre a mesa.
- Chegou a hora querida! Direitos iguais para todos, esqueceu-se do que
as feministas proclamaram? A salsicha não pertence apenas a você! Ela é minha
também e aqueles milhos, espero que eles ainda estejam inteiros em seus
intestinos. Agora é hora de fazer a partilha do pão, nesta Santa Ceia que
partilhamos. – ela começava a sufocar com a pressão da mão dele em sua
garganta.
Cravou a faca na barriga da mulher, logo abaixo do osso esterno e
direcionou o corte até o umbigo dela. Ela desmaiou com a dor e não veria a
própria morte, pobre moça, perdeu a felicidade de ver a própria morte, o
momento mais caloroso, único e especial de nossas vidas mundanas! O momento em
que deixamos de ter qualquer preocupação. Abriu o abdômen dela em duas metades,
dois bifes suculentos que pendiam para cada lado do corpo feminino, revelando
toda a beleza interior que havia nela.
E lá estava! O estômago e os intestinos! Ele puxou para fora aqueles
órgãos quentes recheados de farto alimento. Com fortes dentadas rasgou aqueles
tecidos, chacoalhou pelos ares o conteúdo deles até que encontrou. Ainda
estavam ali, os pedaços mastigados de salsicha e os grãos de milho. Pegou seu
alimento e ingeriu-os. Sujando-se com toda imundície humana. Saciando seu
egoísmo e proclamando seu livre arbítrio.
segunda-feira, 11 de outubro de 2010
NECROPHAGYA!
Está disponível para download gratuito o livro de contos de terror "NECROPHAGYA" escrito por Marius Arthorius.
Abaixo o prefácio do livro...
PREFÁCIO
Necrofagia, o ato de comer carne em decomposição.
Acompanhe esta leitura através do terror, em diversos contos que lhe trazem um banquete de carne humana podre regada a sangue. Mas não coma apenas, procure apreciar o manjar necrofágico, pois em cada mordida, em cada palavra lida, há uma crítica oculta nas entrelinhas.
Sacie seus instintos animalescos e pensantes ao mesmo tempo. Adentre por abismos éticos e morais, mas cuidado para não se perder e não mais voltar dos caminhos insanos que você está prestes a explorar. Você tem coragem de ler estas palavras? De tê-las gravadas em sua mente?
Conheça seus “demônios” internos, os seus pensamentos assassinos mais íntimos e revoltosos estão prestes a serem aliviados. Você tem um encontro marcado com as mortes que se ocultam nas páginas deste livro, não perca tempo, comece a fazer parte destas histórias, inspire o delicioso cheiro de carne pútrida que há diante de você.
Apreciem a leitura...
Link para download ou então através da barra lateral no tópico "Livros do Autor":
http://www.4shared.com/document/S-3Yi4C8/NECROPHAGYA_PDF.html
Abaixo o prefácio do livro...
PREFÁCIO
Necrofagia, o ato de comer carne em decomposição.
Acompanhe esta leitura através do terror, em diversos contos que lhe trazem um banquete de carne humana podre regada a sangue. Mas não coma apenas, procure apreciar o manjar necrofágico, pois em cada mordida, em cada palavra lida, há uma crítica oculta nas entrelinhas.
Sacie seus instintos animalescos e pensantes ao mesmo tempo. Adentre por abismos éticos e morais, mas cuidado para não se perder e não mais voltar dos caminhos insanos que você está prestes a explorar. Você tem coragem de ler estas palavras? De tê-las gravadas em sua mente?
Conheça seus “demônios” internos, os seus pensamentos assassinos mais íntimos e revoltosos estão prestes a serem aliviados. Você tem um encontro marcado com as mortes que se ocultam nas páginas deste livro, não perca tempo, comece a fazer parte destas histórias, inspire o delicioso cheiro de carne pútrida que há diante de você.
Apreciem a leitura...
Link para download ou então através da barra lateral no tópico "Livros do Autor":
http://www.4shared.com/document/S-3Yi4C8/NECROPHAGYA_PDF.html
terça-feira, 29 de junho de 2010
Vivissecção
Vinde a mim, ó desgraça funesta. Arrebente meu corpo com a gadanha que tu carregas. Taxidermize meu corpo, impregne ele com o sal que colocamos dentro da pele dos animais eviscerados que serão empalhados. Faça a precisa incisão inicial abaixo do meu tórax, arrastando a lâmina até minhas genitálias, separe a pele da carne. Preserve meu couro para a posteridade. Pois é com a aparência externa que as pessoas se importam. Destrua tudo que há dentro de mim. Preencha minha pele com macio algodão, sustentado por maleável arame de metal. Assim meu interior será agradável para todos.
Arranque meus olhos, pois eles são as janelas da alma. Através deles demonstramos os sentimentos de nosso encéfalo, sempre oculto na caverna craniana. Forneça para mim olhos de vidro. Que nada demonstram além do olhar vago e insensível de uma criatura morta. Para que assim eu não chore mais pelas paixões perdidas, pelas palavras não ditas e pelos momentos de alegria que ficaram no passado. Assim tem-se o protótipo perfeito do estereótipo social. Um ser que nada sente e que com nada se importa.
Aqui eu me encontro. Com todos estes objetos afiados em minha frente. Frio metal que dilacera a pele humana, como frias palavras que dilaceram os sentimentos humanos. Trazendo-nos as incertezas que se ocultam em todas as partes da vida. Viver é como andar em uma corda estendida sobre um abismo. Seguimos em frente, tentando manter o equilíbrio, rumo ao futuro. No entanto, basta um pequeno erro para cairmos na escuridão abissal. E dela não há mais retorno. Pois nenhuma mão poderá te alcançar, quando com a morte você se encontrar.
Os pregos com os quais agora me perfuro em autoflagelo, fazendo-os romperem a imaculada estrutura de meus ossos, rompendo barreiras rígidas e ocultas de osteócitos e osteoblastos. E talvez até dos osteoclastos. Numa vã representação da dor que assombra minha consciência. Destruindo minhas memórias como se eu tivesse caído nas garras de um parasita indomável. Para o qual eu represento apenas um banquete carnal a ser calmamente devorado. O rubro sangue escorre por inúmeras perfurações espalhadas em meu corpo. Libertando os eritrócitos antes aprisionados em minhas veias e artérias, livres para se encontrarem com alguns leucócitos. Livres para trazerem a morte para perto de mim.
Pudera arrancar todo e qualquer sentimento que verte através das conexões dos neurônios que compõe meu cérebro. Livrando a mim mesmo de sentir qualquer coisa triste ou feliz. Apenas vivendo, alheio e independente de tudo. Em uma cirurgia cerebral e corporal devo interligar meu consciente ao subconsciente, e assim, poder purificar meu corpo através do colapso de minha epiderme. Devo arrebentar meus músculos, como se os sarcolemas fossem devorados por um verme. O nematóide que destrói o antropóide.
Com a faca afiada, despedaço meus dedos. Um a um, separando cada falange. Dissecando cada nervo e tendão. Cortes rápidos e certeiros. Ignoro a dor, pois ela não se compara ao desespero que se instala em minha mente. Dividido na eterna dualidade que freqüenta toda pessoa, dividido entre a vida e a morte. Entre a perda e a rejeição, tudo vira aflição. Percebe-se que felicidade é mera ilusão. A corda da vida oscila fortemente, desgastando-se e quase arrebentando. Mas não é o suficiente, muito mais deve ser feito. Pois a loucura ainda não me encontrou. Dela eu dependo para que talvez eu desfrute da felicidade. Um escape da realidade.
Ainda usando lâminas afiadas, inicio a retirada de minha pele. Como se fosse uma simples veste que oculta a real natureza humana. Que oculta toda a nossa ancestralidade evolutiva. E é essa aparência que quero libertar. Somente assim poderei em paz descansar. Arranco-a lentamente saboreando a descoberta do desconhecido. Tornando minha beleza interior algo conhecido. Sem minha pele para me proteger, sinto quão gélido, frio e cruel é o mundo. Indiferente perante nossa presença animal. Meu corpo, agora vermelho, apresentando nossa cor interior. Como a pele de um demônio imaginário. Estremece perante o sopro do futuro. Emanado de algum dragão que se oculta no abismo que vejo abaixo de meus pés. O abismo da morte, no qual poderia finalmente encontrar a loucura. Meu corpo entra em espasmos devido às tormentas do passado. Seguro-me fortemente na corda vida, para não cair antes do devido tempo. Para não morrer antes do derradeiro momento. Pois a libertação deve ser finalizada. Para que a morte possa ser cruamente aproveitada.
Perco o controle sobre meus músculos. Com esse acontecimento, o conteúdo de meus intestinos escapa, deslizando sobre minha pele, esquentando minhas pernas. O adorável cheiro humano que está sempre perfumando a sociedade. Que demonstra o quão ridícula é nossa presença, apesar de todas as máscaras de importância que tentamos criar.
É necessário raspar a carne que envolve meus ossos. Assim aliviando o peso que há sobre mim. Pedaço por pedaço vou retirando-a. O colapso dos nervos que impulsionam os sinais de dor até meu cérebro. Deixando-o imerso em profunda confusão. Despedaço meu corpo, semelhante a qualquer outro pedaço de carne. Tudo para ter um segundo de tranqüilidade, esquecendo o desespero solitário que está enraizado dentro de mim. Sugando todas as minhas forças e vontades. Os sonhos se desfazem perante a doce ilusão da realidade. Realidade que eu percebo através de meus sentidos que facilmente podem ser enganados para ver tudo distorcido.
Esse barulho infernal que ouço, seria o barulho que a verdade produz em nossas mentes? Ou seria o barulho da dor representada através de meus gritos desesperados? Ainda tenho forças restantes. Com uma longa agulha perfuro meus ouvidos, faço o metal adentrar na escuridão de minha caverna craniana. Uma pequena dor para se obter o silêncio enlouquecido dos que foram eternamente esquecidos. Continuo a gritar, sinto a vibração de minhas cordas vocais. Faça o desespero parar! Pois se você for amar, então também poderá chorar. É o maldito risco que todos encontram quando tentam arriscar.
A mesma agulha que usei para perfurar meus ouvidos, uso para costurar meus lábios. Não sem antes arrancar a minha língua. Ela tenta escapar de minhas mãos como se tivesse vida própria. Nada que um alicate e uma tesoura não possam resolver. Está feito. Em minha frente a estrutura que permitiu que eu descobrisse os sabores do mundo. Sangue se mistura com saliva em minha boca. Engulo essa sacra mistura, como alguém que tenta engolir o choro do sofrimento. Sempre há um pouco mais para ser engolido. Já que o sofrimento é o peso que nos afoga rumo as entranhas da terra.
Quando encontrar a morte, vislumbrarei o que havia antes da vida. A escuridão. O silêncio, a ausência de sentidos e de imaginação. É a escuridão que se encontra antes e depois deste pequeno lampejo que chamamos de vida. E o que fazemos para aproveitar tal lampejo? Transformamo-nos em escravos. Escravos do dinheiro. Do sistema econômico sem o qual não conseguimos viver. Inusitadamente, o que nos permite viver é justamente o que nos impede de aproveitar a totalidade da vida. Não podemos comer papel, mas é ele que nos mantém vivos.
Mesmo com os sentidos destruídos ainda sou atormentado. Pelas lembranças da felicidade que não mais existe. E que agora não voltará a existir. Pois a corda da vida está se desfazendo. Não tenho mais forças para mantê-la. Preciso parar. Não sei como voar, para que do abismo eu possa escapar. Sei apenas caminhar e quase me arrastar. Através deste caminho no qual ninguém me ajudará. Não há como continuar. Com a fria lâmina que tanto trabalhou neste dia, que agora se encontra aquecida pelo meu sangue, irei partir meu coração em definitivo. Para não mais se recuperar. Cravo-a em meu peito. Lentamente rompendo todas as estruturas restantes. Deslizando rumo ao meu músculo cardíaco que se debate como um animal aprisionado que busca liberdade. Enquanto lágrimas dançam insanamente em minha face.
Desculpe Vida, sei o quanto tu és valiosa. Não quero depreciar sua presença, para mim você está acima de todas as coisas. Somente pelo seu valor eu já abnegaria prontamente a presença da Morte. Mas se neste caminho eu for obrigado a estar na presença da Solidão e da Escuridão, então prefiro encontrar estas duas na presença da Morte. Afinal, ela é o local de onde nós viemos.
Marius Arthorius
Arranque meus olhos, pois eles são as janelas da alma. Através deles demonstramos os sentimentos de nosso encéfalo, sempre oculto na caverna craniana. Forneça para mim olhos de vidro. Que nada demonstram além do olhar vago e insensível de uma criatura morta. Para que assim eu não chore mais pelas paixões perdidas, pelas palavras não ditas e pelos momentos de alegria que ficaram no passado. Assim tem-se o protótipo perfeito do estereótipo social. Um ser que nada sente e que com nada se importa.
Aqui eu me encontro. Com todos estes objetos afiados em minha frente. Frio metal que dilacera a pele humana, como frias palavras que dilaceram os sentimentos humanos. Trazendo-nos as incertezas que se ocultam em todas as partes da vida. Viver é como andar em uma corda estendida sobre um abismo. Seguimos em frente, tentando manter o equilíbrio, rumo ao futuro. No entanto, basta um pequeno erro para cairmos na escuridão abissal. E dela não há mais retorno. Pois nenhuma mão poderá te alcançar, quando com a morte você se encontrar.
Os pregos com os quais agora me perfuro em autoflagelo, fazendo-os romperem a imaculada estrutura de meus ossos, rompendo barreiras rígidas e ocultas de osteócitos e osteoblastos. E talvez até dos osteoclastos. Numa vã representação da dor que assombra minha consciência. Destruindo minhas memórias como se eu tivesse caído nas garras de um parasita indomável. Para o qual eu represento apenas um banquete carnal a ser calmamente devorado. O rubro sangue escorre por inúmeras perfurações espalhadas em meu corpo. Libertando os eritrócitos antes aprisionados em minhas veias e artérias, livres para se encontrarem com alguns leucócitos. Livres para trazerem a morte para perto de mim.
Pudera arrancar todo e qualquer sentimento que verte através das conexões dos neurônios que compõe meu cérebro. Livrando a mim mesmo de sentir qualquer coisa triste ou feliz. Apenas vivendo, alheio e independente de tudo. Em uma cirurgia cerebral e corporal devo interligar meu consciente ao subconsciente, e assim, poder purificar meu corpo através do colapso de minha epiderme. Devo arrebentar meus músculos, como se os sarcolemas fossem devorados por um verme. O nematóide que destrói o antropóide.
Com a faca afiada, despedaço meus dedos. Um a um, separando cada falange. Dissecando cada nervo e tendão. Cortes rápidos e certeiros. Ignoro a dor, pois ela não se compara ao desespero que se instala em minha mente. Dividido na eterna dualidade que freqüenta toda pessoa, dividido entre a vida e a morte. Entre a perda e a rejeição, tudo vira aflição. Percebe-se que felicidade é mera ilusão. A corda da vida oscila fortemente, desgastando-se e quase arrebentando. Mas não é o suficiente, muito mais deve ser feito. Pois a loucura ainda não me encontrou. Dela eu dependo para que talvez eu desfrute da felicidade. Um escape da realidade.
Ainda usando lâminas afiadas, inicio a retirada de minha pele. Como se fosse uma simples veste que oculta a real natureza humana. Que oculta toda a nossa ancestralidade evolutiva. E é essa aparência que quero libertar. Somente assim poderei em paz descansar. Arranco-a lentamente saboreando a descoberta do desconhecido. Tornando minha beleza interior algo conhecido. Sem minha pele para me proteger, sinto quão gélido, frio e cruel é o mundo. Indiferente perante nossa presença animal. Meu corpo, agora vermelho, apresentando nossa cor interior. Como a pele de um demônio imaginário. Estremece perante o sopro do futuro. Emanado de algum dragão que se oculta no abismo que vejo abaixo de meus pés. O abismo da morte, no qual poderia finalmente encontrar a loucura. Meu corpo entra em espasmos devido às tormentas do passado. Seguro-me fortemente na corda vida, para não cair antes do devido tempo. Para não morrer antes do derradeiro momento. Pois a libertação deve ser finalizada. Para que a morte possa ser cruamente aproveitada.
Perco o controle sobre meus músculos. Com esse acontecimento, o conteúdo de meus intestinos escapa, deslizando sobre minha pele, esquentando minhas pernas. O adorável cheiro humano que está sempre perfumando a sociedade. Que demonstra o quão ridícula é nossa presença, apesar de todas as máscaras de importância que tentamos criar.
É necessário raspar a carne que envolve meus ossos. Assim aliviando o peso que há sobre mim. Pedaço por pedaço vou retirando-a. O colapso dos nervos que impulsionam os sinais de dor até meu cérebro. Deixando-o imerso em profunda confusão. Despedaço meu corpo, semelhante a qualquer outro pedaço de carne. Tudo para ter um segundo de tranqüilidade, esquecendo o desespero solitário que está enraizado dentro de mim. Sugando todas as minhas forças e vontades. Os sonhos se desfazem perante a doce ilusão da realidade. Realidade que eu percebo através de meus sentidos que facilmente podem ser enganados para ver tudo distorcido.
Esse barulho infernal que ouço, seria o barulho que a verdade produz em nossas mentes? Ou seria o barulho da dor representada através de meus gritos desesperados? Ainda tenho forças restantes. Com uma longa agulha perfuro meus ouvidos, faço o metal adentrar na escuridão de minha caverna craniana. Uma pequena dor para se obter o silêncio enlouquecido dos que foram eternamente esquecidos. Continuo a gritar, sinto a vibração de minhas cordas vocais. Faça o desespero parar! Pois se você for amar, então também poderá chorar. É o maldito risco que todos encontram quando tentam arriscar.
A mesma agulha que usei para perfurar meus ouvidos, uso para costurar meus lábios. Não sem antes arrancar a minha língua. Ela tenta escapar de minhas mãos como se tivesse vida própria. Nada que um alicate e uma tesoura não possam resolver. Está feito. Em minha frente a estrutura que permitiu que eu descobrisse os sabores do mundo. Sangue se mistura com saliva em minha boca. Engulo essa sacra mistura, como alguém que tenta engolir o choro do sofrimento. Sempre há um pouco mais para ser engolido. Já que o sofrimento é o peso que nos afoga rumo as entranhas da terra.
Quando encontrar a morte, vislumbrarei o que havia antes da vida. A escuridão. O silêncio, a ausência de sentidos e de imaginação. É a escuridão que se encontra antes e depois deste pequeno lampejo que chamamos de vida. E o que fazemos para aproveitar tal lampejo? Transformamo-nos em escravos. Escravos do dinheiro. Do sistema econômico sem o qual não conseguimos viver. Inusitadamente, o que nos permite viver é justamente o que nos impede de aproveitar a totalidade da vida. Não podemos comer papel, mas é ele que nos mantém vivos.
Mesmo com os sentidos destruídos ainda sou atormentado. Pelas lembranças da felicidade que não mais existe. E que agora não voltará a existir. Pois a corda da vida está se desfazendo. Não tenho mais forças para mantê-la. Preciso parar. Não sei como voar, para que do abismo eu possa escapar. Sei apenas caminhar e quase me arrastar. Através deste caminho no qual ninguém me ajudará. Não há como continuar. Com a fria lâmina que tanto trabalhou neste dia, que agora se encontra aquecida pelo meu sangue, irei partir meu coração em definitivo. Para não mais se recuperar. Cravo-a em meu peito. Lentamente rompendo todas as estruturas restantes. Deslizando rumo ao meu músculo cardíaco que se debate como um animal aprisionado que busca liberdade. Enquanto lágrimas dançam insanamente em minha face.
Desculpe Vida, sei o quanto tu és valiosa. Não quero depreciar sua presença, para mim você está acima de todas as coisas. Somente pelo seu valor eu já abnegaria prontamente a presença da Morte. Mas se neste caminho eu for obrigado a estar na presença da Solidão e da Escuridão, então prefiro encontrar estas duas na presença da Morte. Afinal, ela é o local de onde nós viemos.
Marius Arthorius
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Salahtiel
Escrito em conjunto com o escritor Márson Alquati.
“Quem esquece os erros do passado, está fadado a repeti-los.”
O sol iniciava a sua atividade, surgindo ao longe, no horizonte distante e começando a iluminar a imensidão da planície descampada. Nada além de terras vazias e desprovidas de qualquer forma de vida, até onde os olhos podiam enxergar. Uma fina camada de gelo recobria o solo árido, refletindo o frio da noite anterior. O antigo guerreiro de asas negras arrastava-se solitário e reflexivo, em direção ao sol nascente. Assim vinha se orientando durante toda a sua atual vida. Qual mariposa desgarrada que se orienta seguindo a lua, ele o fazia, perseguindo dia após dia, o astro-rei.
Carregava, embainhada na cintura, a espada, cuja lâmina maculava-se com o sangue coagulado e pútrido de seus inimigos. Sua armadura, outrora prateada e lustrosa, agora se ressentia, amassada e suja de terra e sangue. De terras distantes e do sangue dos inimigos e amigos, mortos brutalmente em uma cruel e sangrenta batalha. Todos se foram. Sozinho ficara. Sim, era o único remanescente de seu povo. E agora rumava decidido ao encontro da derradeira batalha. A última a ser travada em sua breve vida. E a Morte, aquela inexorável e sombria dama revestida de negras roupagens e sua implacável foice o rondavam, dançando ao seu redor e zombando do triste fim a que estava condenado.
O triste fim de não ter um fim.
As melancólicas lembranças dos gritos de horrores que emergiam das profundezas viscerais das pessoas com as quais convivera a sua vida inteira permaneciam gravadas em sua memória. Gerações inteiras surgiram e desapareceram, enquanto seguia amaldiçoado a vagar pela superfície de um mundo infestado de necroses e morte, dor e sofrimento, situado além das leis de imposição do tempo e do espaço, sem que jamais conseguisse alcançar o seu momento final, sem que pudesse receber o seu merecido descanso.
Embora muitos contestassem tal afirmação, a vida eterna, pelo menos para ele, não era uma dádiva. Mas uma terrível maldição, em que a morte não era encarada como um ato nefasto, e sim, a almejada conclusão de um ciclo, ao qual, todos eram destinados. Todos os que um dia o guerreiro alado amou e agora se foram, ceifados do tabuleiro, definitiva e inexoravelmente excluídos do jogo. Todos menos ele. Um ciclo completo que se findava a cada nova geração. Ao princípio, a solidão parecia atraente, tornando-se, em determinados momentos, uma excelente e aprazível companheira. Entretanto, quando se permanece por um longo período na solidão, descobre-se que esta pode se tornar demasiado monótona.
Imerso apenas em seus próprios pensamentos, a loucura se encontrava atrás de cada porta, de cada pedra ou árvore por onde ele andejava. Passou, então, a ansiar pelo fim de sua própria existência. Que a sua combalida consciência deixasse de existir. E, com ela, toda dor e sofrimento, impostos pela inevitável e sádica passagem do tempo.
Andando pelo gélido deserto, acompanhado das três damas que todo ser vivo teme: a Morte, a Loucura e a Solidão, três irmãs que, fatal e infalivelmente, conduzem ao mesmo caminho, não tardaria para o guerreiro atingir o primeiro patamar rumo aos seus objetivos de vingança. Finalmente, a ansiada paz poderia ser alcançada. Porém, para isso, sangue culpado e também inocente deveria ser derramado, uma vez que em batalhas como a que estava prestes a travar, não existiam inocentes. Todos eram culpados, portanto, mereciam ser executados!
De repente, a voz da consciência emerge na obscurecida mente do guerreiro andante e o faz perceber que, por inúmeras vezes, as pessoas em geral, deixam-se levar, seguindo as caudalosas correntes da vida, guiadas por pensamentos fantasiosos, quase sempre forjados pelos próprios erros e experiências. Com ele não havia sido diferente. Apenas acompanhava o curso do tenebroso Rio Destino. Sofrimento e dor foram elementos sempre presentes em sua desgraçada vida, mas agora tudo isso estava prestes a mudar. Assim seguia o guerreiro, refletindo sobre sua jornada terrena, consciente de que a sua única certeza era a vingança.
* * * * *
Muito tempo antes...
Uma sangrenta guerra inter-racial entre anjos e demônios corria solta, devastando o mundo em que ambos viviam. Ninguém mais lembrava como havia começado. Ninguém se importava. O sangue e a espada, o ódio e a lança falavam mais alto. A guerra já se estendia por incontáveis séculos, dizimando ambas as raças até que restassem somente uns poucos milhares de soldados em cada facção. E, intencionados em ultimá-la, os demônios haviam iniciado uma gigantesca ofensiva contra o território dos anjos. A batalha fora terrível e só uns poucos representantes celestiais haviam sobrevivido às hordas do mal.
Foi ao raiar de uma manhã ensolarada. O acampamento dos anjos ainda dormia quando foi subitamente invadido e totalmente dizimado. Os anjos nada puderam fazer para impedir que as suas mulheres e crianças fossem chacinadas. Ninguém foi poupado.
Após derrotar o inimigo em mais uma violenta batalha em terras distantes e vencer a distância da longa viagem através das montanhas e vales, acompanhado de seu batalhão, o líder da gloriosa raça dos anjos, Salahtiel, finalmente alcançou os limites do acampamento-cidade de seu povo. E o que contemplou, remeteu-o, no mesmo instante, às profundezas do mais nefasto e cruel Inferno. O terreno, outrora composto por exuberantes campos dourados de trigo, dançando acariciados pelos doces ventos e entremeados por límpidos córregos de água cristalina, no momento, era uma terra enegrecida pelo fogo, que ainda mantinha a sua fumaça estagnada no ambiente. Uma névoa obscura que pairava a pouca altura, tentando inutilmente ocultar os horrores da guerra. Uma devastadora e nefanda guerra...
Cadáveres, de anjos e demônios, jaziam espalhados por todas as partes, entremeados por um verdadeiro mar de sangue e vísceras. O dourado do trigo ressentia-se de vermelho e azul. O sangue dos demônios e o dos anjos. Corpos mutilados, estraçalhados, despedaçados. Vidas abreviadas. Sonhos interrompidos.
O ódio tomou conta dos recém chegados. E um incontrolável desejo de vingança foi crescendo dentro de cada anjo ali presente. Ainda era possível ouvirem o som lamuriante e desesperado dos desafortunados compatriotas moribundos, lutando para se manterem vivos.
E, completamente obliterados pelo ódio e pelo desejo de reparação do mal, partiram ao encalço do inimigo. Não tardou para avistarem-no. Ao comando de Salahtiel, o batalhão angelical dividiu-se em dois grupos. E, separados, simultaneamente arremeteram-se sobre o amaldiçoado exército demoníaco, cercando-o, prontos para atacarem pelos flancos, como as pontas de um alicate que se fecham sobre o dente a fim de extraí-lo.
Munidos de seus enormes escudos retangulares, espadas, arcos e lanças empunhadas, avançaram sobre a terra queimada e caíram ferozes sobre as tropas infernais. O embate que se seguiu foi cruel e desigual. Eram apenas cem anjos contra milhares de demônios. Mesmo assim, ao final do embate, todos os soldados do Inferno, sem exceção, haviam tombado sob as lâminas azuladas das armas angelicais. E, só então, Salahtiel percebeu que todos os anjos também. Só ele havia sobrevivido. O último representante de sua raça.
Foi quando ouviu um gemido curto e abafado aos seus pés, seguido de mortiça voz. Era o líder daquele batalhão de demônios, conjurando uma maldição contra ele. Trespassou o coração do sujeito, mas não evitou o mal conjurado.
Desde então, ele que não tinha mais razões para viver, tornara-se imortal.
Imortal e solitário. Imortal e infeliz.
* * * * *
De volta ao deserto...
Acabara de eliminar o último representante da raça dos demônios e agora partia em busca do próprio destino. A última batalha estava prestes a ser travada.
Gerações e gerações haviam transcorrido desde que fora amaldiçoado pelo líder dos demônios. Condenado a vagar até os confins do mundo caçando àqueles que haviam trazido a desgraça ao seu povo.
Para ele, tão amplamente condecorado no passado pelas vitórias dos anjos, medalhas não mais possuíam valor. A única medalha que Salahtiel desejava era a da redenção.
Redenção só possível de ser alcançada com a Morte. E esta, para ele era impossível e inalcançável. Contudo, restava uma vã esperança. Uma remota chance de mudar os inexoráveis rumos do destino.
Chegou a um desfiladeiro que desembocava num precipício que não se podia ver o fundo de tão escuro e insondável que era. Aproximou-se da beirada e espiou. Só viu trevas e escuridão. Hesitou, lembrando-se do seu povo, dos parentes, amigos e companheiros de armas, da mulher e dos filhos mortos durante a invasão ao acampamento-cidade.
Só teria uma oportunidade. Se falhasse, tudo estaria perdido. Inspirou profundamente, procurando reunir a coragem necessária. Fechou os olhos e, sem medir as conseqüências dos seus atos, avançou para o vazio, sendo engolido por ele.
* * * * *
Porém, algo deu errado. E, ao acordar, Salahtiel percebeu que não só não havia morrido, como se encontrava agora, em outro tempo e noutro mundo, habitado por criaturas inferiores, primitivas e frágeis, carentes de alguém que as auxiliasse em sua evolução. Compreendeu que ele era o guia e que guiá-las seria o seu castigo eterno. Resolveu, então, fazê-lo pelas sombras. E, ato contínuo, alterou o próprio nome, por outro, mais condizente com a sua nova condição de portador e guardião da luz, além de carrasco dos ímpios e dos de má índole.
E, desde então, Lúcifer, o anjo caído, vive entre nós...
Marius Arthorius
“Quem esquece os erros do passado, está fadado a repeti-los.”
O sol iniciava a sua atividade, surgindo ao longe, no horizonte distante e começando a iluminar a imensidão da planície descampada. Nada além de terras vazias e desprovidas de qualquer forma de vida, até onde os olhos podiam enxergar. Uma fina camada de gelo recobria o solo árido, refletindo o frio da noite anterior. O antigo guerreiro de asas negras arrastava-se solitário e reflexivo, em direção ao sol nascente. Assim vinha se orientando durante toda a sua atual vida. Qual mariposa desgarrada que se orienta seguindo a lua, ele o fazia, perseguindo dia após dia, o astro-rei.
Carregava, embainhada na cintura, a espada, cuja lâmina maculava-se com o sangue coagulado e pútrido de seus inimigos. Sua armadura, outrora prateada e lustrosa, agora se ressentia, amassada e suja de terra e sangue. De terras distantes e do sangue dos inimigos e amigos, mortos brutalmente em uma cruel e sangrenta batalha. Todos se foram. Sozinho ficara. Sim, era o único remanescente de seu povo. E agora rumava decidido ao encontro da derradeira batalha. A última a ser travada em sua breve vida. E a Morte, aquela inexorável e sombria dama revestida de negras roupagens e sua implacável foice o rondavam, dançando ao seu redor e zombando do triste fim a que estava condenado.
O triste fim de não ter um fim.
As melancólicas lembranças dos gritos de horrores que emergiam das profundezas viscerais das pessoas com as quais convivera a sua vida inteira permaneciam gravadas em sua memória. Gerações inteiras surgiram e desapareceram, enquanto seguia amaldiçoado a vagar pela superfície de um mundo infestado de necroses e morte, dor e sofrimento, situado além das leis de imposição do tempo e do espaço, sem que jamais conseguisse alcançar o seu momento final, sem que pudesse receber o seu merecido descanso.
Embora muitos contestassem tal afirmação, a vida eterna, pelo menos para ele, não era uma dádiva. Mas uma terrível maldição, em que a morte não era encarada como um ato nefasto, e sim, a almejada conclusão de um ciclo, ao qual, todos eram destinados. Todos os que um dia o guerreiro alado amou e agora se foram, ceifados do tabuleiro, definitiva e inexoravelmente excluídos do jogo. Todos menos ele. Um ciclo completo que se findava a cada nova geração. Ao princípio, a solidão parecia atraente, tornando-se, em determinados momentos, uma excelente e aprazível companheira. Entretanto, quando se permanece por um longo período na solidão, descobre-se que esta pode se tornar demasiado monótona.
Imerso apenas em seus próprios pensamentos, a loucura se encontrava atrás de cada porta, de cada pedra ou árvore por onde ele andejava. Passou, então, a ansiar pelo fim de sua própria existência. Que a sua combalida consciência deixasse de existir. E, com ela, toda dor e sofrimento, impostos pela inevitável e sádica passagem do tempo.
Andando pelo gélido deserto, acompanhado das três damas que todo ser vivo teme: a Morte, a Loucura e a Solidão, três irmãs que, fatal e infalivelmente, conduzem ao mesmo caminho, não tardaria para o guerreiro atingir o primeiro patamar rumo aos seus objetivos de vingança. Finalmente, a ansiada paz poderia ser alcançada. Porém, para isso, sangue culpado e também inocente deveria ser derramado, uma vez que em batalhas como a que estava prestes a travar, não existiam inocentes. Todos eram culpados, portanto, mereciam ser executados!
De repente, a voz da consciência emerge na obscurecida mente do guerreiro andante e o faz perceber que, por inúmeras vezes, as pessoas em geral, deixam-se levar, seguindo as caudalosas correntes da vida, guiadas por pensamentos fantasiosos, quase sempre forjados pelos próprios erros e experiências. Com ele não havia sido diferente. Apenas acompanhava o curso do tenebroso Rio Destino. Sofrimento e dor foram elementos sempre presentes em sua desgraçada vida, mas agora tudo isso estava prestes a mudar. Assim seguia o guerreiro, refletindo sobre sua jornada terrena, consciente de que a sua única certeza era a vingança.
* * * * *
Muito tempo antes...
Uma sangrenta guerra inter-racial entre anjos e demônios corria solta, devastando o mundo em que ambos viviam. Ninguém mais lembrava como havia começado. Ninguém se importava. O sangue e a espada, o ódio e a lança falavam mais alto. A guerra já se estendia por incontáveis séculos, dizimando ambas as raças até que restassem somente uns poucos milhares de soldados em cada facção. E, intencionados em ultimá-la, os demônios haviam iniciado uma gigantesca ofensiva contra o território dos anjos. A batalha fora terrível e só uns poucos representantes celestiais haviam sobrevivido às hordas do mal.
Foi ao raiar de uma manhã ensolarada. O acampamento dos anjos ainda dormia quando foi subitamente invadido e totalmente dizimado. Os anjos nada puderam fazer para impedir que as suas mulheres e crianças fossem chacinadas. Ninguém foi poupado.
Após derrotar o inimigo em mais uma violenta batalha em terras distantes e vencer a distância da longa viagem através das montanhas e vales, acompanhado de seu batalhão, o líder da gloriosa raça dos anjos, Salahtiel, finalmente alcançou os limites do acampamento-cidade de seu povo. E o que contemplou, remeteu-o, no mesmo instante, às profundezas do mais nefasto e cruel Inferno. O terreno, outrora composto por exuberantes campos dourados de trigo, dançando acariciados pelos doces ventos e entremeados por límpidos córregos de água cristalina, no momento, era uma terra enegrecida pelo fogo, que ainda mantinha a sua fumaça estagnada no ambiente. Uma névoa obscura que pairava a pouca altura, tentando inutilmente ocultar os horrores da guerra. Uma devastadora e nefanda guerra...
Cadáveres, de anjos e demônios, jaziam espalhados por todas as partes, entremeados por um verdadeiro mar de sangue e vísceras. O dourado do trigo ressentia-se de vermelho e azul. O sangue dos demônios e o dos anjos. Corpos mutilados, estraçalhados, despedaçados. Vidas abreviadas. Sonhos interrompidos.
O ódio tomou conta dos recém chegados. E um incontrolável desejo de vingança foi crescendo dentro de cada anjo ali presente. Ainda era possível ouvirem o som lamuriante e desesperado dos desafortunados compatriotas moribundos, lutando para se manterem vivos.
E, completamente obliterados pelo ódio e pelo desejo de reparação do mal, partiram ao encalço do inimigo. Não tardou para avistarem-no. Ao comando de Salahtiel, o batalhão angelical dividiu-se em dois grupos. E, separados, simultaneamente arremeteram-se sobre o amaldiçoado exército demoníaco, cercando-o, prontos para atacarem pelos flancos, como as pontas de um alicate que se fecham sobre o dente a fim de extraí-lo.
Munidos de seus enormes escudos retangulares, espadas, arcos e lanças empunhadas, avançaram sobre a terra queimada e caíram ferozes sobre as tropas infernais. O embate que se seguiu foi cruel e desigual. Eram apenas cem anjos contra milhares de demônios. Mesmo assim, ao final do embate, todos os soldados do Inferno, sem exceção, haviam tombado sob as lâminas azuladas das armas angelicais. E, só então, Salahtiel percebeu que todos os anjos também. Só ele havia sobrevivido. O último representante de sua raça.
Foi quando ouviu um gemido curto e abafado aos seus pés, seguido de mortiça voz. Era o líder daquele batalhão de demônios, conjurando uma maldição contra ele. Trespassou o coração do sujeito, mas não evitou o mal conjurado.
Desde então, ele que não tinha mais razões para viver, tornara-se imortal.
Imortal e solitário. Imortal e infeliz.
* * * * *
De volta ao deserto...
Acabara de eliminar o último representante da raça dos demônios e agora partia em busca do próprio destino. A última batalha estava prestes a ser travada.
Gerações e gerações haviam transcorrido desde que fora amaldiçoado pelo líder dos demônios. Condenado a vagar até os confins do mundo caçando àqueles que haviam trazido a desgraça ao seu povo.
Para ele, tão amplamente condecorado no passado pelas vitórias dos anjos, medalhas não mais possuíam valor. A única medalha que Salahtiel desejava era a da redenção.
Redenção só possível de ser alcançada com a Morte. E esta, para ele era impossível e inalcançável. Contudo, restava uma vã esperança. Uma remota chance de mudar os inexoráveis rumos do destino.
Chegou a um desfiladeiro que desembocava num precipício que não se podia ver o fundo de tão escuro e insondável que era. Aproximou-se da beirada e espiou. Só viu trevas e escuridão. Hesitou, lembrando-se do seu povo, dos parentes, amigos e companheiros de armas, da mulher e dos filhos mortos durante a invasão ao acampamento-cidade.
Só teria uma oportunidade. Se falhasse, tudo estaria perdido. Inspirou profundamente, procurando reunir a coragem necessária. Fechou os olhos e, sem medir as conseqüências dos seus atos, avançou para o vazio, sendo engolido por ele.
* * * * *
Porém, algo deu errado. E, ao acordar, Salahtiel percebeu que não só não havia morrido, como se encontrava agora, em outro tempo e noutro mundo, habitado por criaturas inferiores, primitivas e frágeis, carentes de alguém que as auxiliasse em sua evolução. Compreendeu que ele era o guia e que guiá-las seria o seu castigo eterno. Resolveu, então, fazê-lo pelas sombras. E, ato contínuo, alterou o próprio nome, por outro, mais condizente com a sua nova condição de portador e guardião da luz, além de carrasco dos ímpios e dos de má índole.
E, desde então, Lúcifer, o anjo caído, vive entre nós...
Marius Arthorius
Insânia
Olhe em algum relógio, que horas são? Em seu colo ele carrega um afiado machado. Quantos já não provaram deste metal gelado. Cada dia uma ferramenta, cada dia uma vida que ele atormenta. Viajando de cidade em cidade, sempre durante a noite. Mas ele não é um vampiro e nem nada sobrenatural, é muito pior, é humano, Homo sapiens. Ele sabia e ainda sabe que a realidade pode ser bem mais cruel que a ficção da imaginação. Ele nem se lembra quando começou com esta carnificina toda. Só se lembra que o gosto é bom e a carne é macia. Ele apenas gosta do escuro, com tantos recantos obscuros para esconder e observar, finalmente matar. Que horas são? Falta pouco, muito pouco. Ele só quer saciar a sua fome, o estômago está inquieto. E a imaginação voa rapidamente.
Se o populacho quer cerveja e futebol, ele quer sangue e dor. Como qualquer outro, um fanático espectador. Buscando pelo seu pão e seu circo. O desejo de todo povo! Preferem escapar da realidade, deixarem o governo manipulá-los, mas não trocam seu pão e seu circo por nada. E ele também busca sua diversão. Onde ele está? Está em sua cidade. Estripando e devorando algum desavisado. Bebendo sangue em cálice de ouro e comendo carne bem passada, cuidadosamente preparada. E muito bem temperada. Pode ser que ele esteja do outro lado da porta de sua casa ou te observando pela janela. Experimentando teu cheiro, excitando-se com tua face de medo e horror. Que horas são? Hora de comer! Ele está com muita fome. Anseia por esquartejar teu corpo, enquanto você grita e se contorce em agonia, chamando pela sua deidade, apenas para saber que nenhuma ajuda virá para atender suas preces.
Ele quer seu sangue doce como mel. Amarrar você e rasgar sua pele e tingir-se com o vermelho de teu sangue. Não chores, talvez ele arranque alguns de seus dentes para confeccionar um colar que poderá ser enviado de lembrança para seus familiares. Seu crânio enfeitará a estante dele, segurando alguns livros sobre anatomia humana e culinária. Que horas são? Hora de você sofrer, é hora de você morrer. Com o machado você conhecerá o real significado da palavra dor. Tu verás teus ossos sendo partidos com violência e precisão. Tu descobrirás que em apenas alguns minutos uma pessoa pode desejar estar morta há anos ou desejar nunca ter nascido. E você será a refeição perfeita, ninguém sentirá tua falta, pois em tua vida, tu foste apenas mais um na multidão. Tu que anseias pelo sangue destas palavras! Tu serás o grande banquete!
Que horas são? Quem é ele? Tu ainda me perguntas? Pergunta-me e eu te pergunto, todos tem perguntas? Se não queres pergunta, cale-se e diga “amém”. Ele é eu e eu sou ele. Apesar de que não me lembro dele. Nada fora do normal e agora? Venha para fora! Deixe-me terminar, sim, terminar de afiar meu lindo machado para te cortar, abastecer o carro e comprar os temperos. Eu quero você e ele quer você, porque eu sou ele e ele sou eu ou ele é eu? Quem se importa? Esta será tua última preocupação! Espere-me em tua casa esta noite, mas espere-me de portas trancadas, assim podemos nos divertir um pouco antes do jantar. Estou salivando por sua imaculada carne, pensando em todos os pratos que prepararei para nosso jantar. Estou nervosamente ansiando com a expectativa de te comer (literalmente).
Marius Arthorius
Se o populacho quer cerveja e futebol, ele quer sangue e dor. Como qualquer outro, um fanático espectador. Buscando pelo seu pão e seu circo. O desejo de todo povo! Preferem escapar da realidade, deixarem o governo manipulá-los, mas não trocam seu pão e seu circo por nada. E ele também busca sua diversão. Onde ele está? Está em sua cidade. Estripando e devorando algum desavisado. Bebendo sangue em cálice de ouro e comendo carne bem passada, cuidadosamente preparada. E muito bem temperada. Pode ser que ele esteja do outro lado da porta de sua casa ou te observando pela janela. Experimentando teu cheiro, excitando-se com tua face de medo e horror. Que horas são? Hora de comer! Ele está com muita fome. Anseia por esquartejar teu corpo, enquanto você grita e se contorce em agonia, chamando pela sua deidade, apenas para saber que nenhuma ajuda virá para atender suas preces.
Ele quer seu sangue doce como mel. Amarrar você e rasgar sua pele e tingir-se com o vermelho de teu sangue. Não chores, talvez ele arranque alguns de seus dentes para confeccionar um colar que poderá ser enviado de lembrança para seus familiares. Seu crânio enfeitará a estante dele, segurando alguns livros sobre anatomia humana e culinária. Que horas são? Hora de você sofrer, é hora de você morrer. Com o machado você conhecerá o real significado da palavra dor. Tu verás teus ossos sendo partidos com violência e precisão. Tu descobrirás que em apenas alguns minutos uma pessoa pode desejar estar morta há anos ou desejar nunca ter nascido. E você será a refeição perfeita, ninguém sentirá tua falta, pois em tua vida, tu foste apenas mais um na multidão. Tu que anseias pelo sangue destas palavras! Tu serás o grande banquete!
Que horas são? Quem é ele? Tu ainda me perguntas? Pergunta-me e eu te pergunto, todos tem perguntas? Se não queres pergunta, cale-se e diga “amém”. Ele é eu e eu sou ele. Apesar de que não me lembro dele. Nada fora do normal e agora? Venha para fora! Deixe-me terminar, sim, terminar de afiar meu lindo machado para te cortar, abastecer o carro e comprar os temperos. Eu quero você e ele quer você, porque eu sou ele e ele sou eu ou ele é eu? Quem se importa? Esta será tua última preocupação! Espere-me em tua casa esta noite, mas espere-me de portas trancadas, assim podemos nos divertir um pouco antes do jantar. Estou salivando por sua imaculada carne, pensando em todos os pratos que prepararei para nosso jantar. Estou nervosamente ansiando com a expectativa de te comer (literalmente).
Marius Arthorius
Louvor à Lua Cheia
A escuridão já dominou o dia. A lua cheia ilumina a paisagem com sua claridade prateada. Os seres viventes escondem-se em suas tocas, apenas os mais corajosos ou os mais temerosos se aventuram nos recantos da escuridão. Os predadores deixam suas tocas e avançam procurando pela caça, certos de que triunfarão. Pelo alimento e pelo prazer de matar. Ter em suas mãos a opção de escolha, decidindo quem vai viver ou morrer, o que melhor desejar.
São nessas noites que sou atormentado por intensa dor de cabeça. Preferiria esmagá-la com uma marreta do que sentir tamanha dor. Ver meu cérebro diluindo-se e espalhando-se pelo ar após um golpe certeiro. Poderia ser melhor do que esta dor que emana de minhas profundezas encefálicas. Se assim o fizesse, a dor acabaria. Infelizmente a dor é um justo preço a se pagar pelo prazer. O prazer das caçadas. De ser um predador.
Pois após as dores intensas de minha cabeça é que ele surge. Domina minha mente. Ele, aquele que se oculta dentro de todo ser humano. O animal selvagem que tentamos ocultar. Nossos instintos assassinos que nos mantém ligados ao mundo natural. Durante os dias normais permanece oculto sob o manto da consciência. Então, surge a lua, bela e reluzente. Divino encanto que toma conta de meu corpo. Doce amada tão distante nos céus. Para você dedico todos os meus sacrifícios, para você destino todo o sangue derramado e a carne devorada. Todo corpo violado, todo coração despedaçado.
Recordo-me da noite anterior, cada momento gravado em minha mente. Cada segundo parecia uma eternidade. Saí de casa, iluminado pela minha doce amada observando-me do alto, imaculada no céu. Respiração ofegante, um misto de odores atrativos, escolha seu prato e sirva-se. Perambulei pelas ruas andando pelos recantos obscuros. Corpo curvado e oculto, um predador espreitando suas presas. Observando, analisando, escolhendo qual seria o prato principal. Só de lembrar do sabor da carne em contato com minha língua já começo a salivar. Meu corpo todo estremece, um rugido surgiu das profundezas de meu corpo. Alto e feroz, ecoou pelas ruas da cidade semi-adormecida. Meu corpo não parece mais o mesmo. As roupas parecem me aprisionar, livro-me delas. Sinto a liberdade. Livre das vestes sociais que aprisionam a todo cidadão. Livre como vim ao mundo. Sem roupas e sem crenças. Um animal como qualquer pessoa, apenas vivendo.
Distante no meu campo de visão ela surge. Vindo em minha direção. Andando apressada na escuridão da madrugada. Vislumbro a lua, minha amada. Esta seria seu sacrifício. A batida dos sapatos dela na calçada ecoam pela rua vazia. Barulho constante e regular. Cada vez mais próximo. Permaneço oculto nas sombras, tal qual governante que manipula seu povo. Mais próxima ela está, sinto seu cheiro. O medo exala dos poros de sua pele. Aroma incomparável, o perfume mais atrativo que alguém poderia querer. O medo dos covardes e dos corajosos, sentimento que nos mantém vivos. Mas para ela o medo não seria o bastante. Não a ajudaria em nada.
Em minha frente ela está, pulo sobre ela, como um lobo pula sobre um coelho. Derrubo-a no chão. Ela tenta se livrar de mim. Seguro sua cabeça com minha mão, e faço seu crânio encontrar o rígido chão. Apenas o suficiente para a inconsciência dominar seu corpo. Carne viva é disso que preciso. Carne fresca e sangue quente. Vísceras pulsantes. Arrasto-a para o recanto obscuro de um terreno vazio. O local perfeito para fartar-me e saciar minha fome, completando o vazio que se apossou de meu pútrido encéfalo. O corpo inconsciente em minha frente, com respiração ofegante, tudo será como antes. Deixo-a desnuda, livre das vestes, cheiro a carne fresca. Olho para sua face, um filete de sangue escorre de uma das narinas. Lambo e degusto o sabor deste delicioso líquido vermelho. Fluido agradável que me embriaga e me entorpece. Dedico a você, lua, minha amada. Tão pálida e distante no céu. Abaixo-me sobre o corpo inerte. O rugido verte de minhas entranhas e é emanado por minha garganta.
A vítima acorda. Olha para mim assustada. Como se tivesse visto um fantasma. Ou talvez um monstro. Não sou nenhum, nem outro. Sou animal, sou homem. Lobisomem. Abocanho sua face, perfuro sua pele sedosa com meus dentes afiados. Que arrancam pele, carne e cartilagem. Desfazendo a maquilagem. Entre uivos, devoro-a pedaço a pedaço. Banho-me no líquido rubro. Perante o olhar atencioso de minha amada. Carne vermelha e sedosa. Suntuosa refeição. Arranco os membros, primeiro braços, depois pernas. Ação que me trás recordações internas. Arrebento seu abdômen, retiro os intestinos que se esfacelam e liberam seu conteúdo. Impregnando o ambiente com agradável odor, melhor do que tudo. Minha amada saciada está, e assim permanecerá. Até que outra vez apareça no céu, indicando que eu devo caçar, para que assim eu possa mais uma vez amar.
Marius Arthorius
São nessas noites que sou atormentado por intensa dor de cabeça. Preferiria esmagá-la com uma marreta do que sentir tamanha dor. Ver meu cérebro diluindo-se e espalhando-se pelo ar após um golpe certeiro. Poderia ser melhor do que esta dor que emana de minhas profundezas encefálicas. Se assim o fizesse, a dor acabaria. Infelizmente a dor é um justo preço a se pagar pelo prazer. O prazer das caçadas. De ser um predador.
Pois após as dores intensas de minha cabeça é que ele surge. Domina minha mente. Ele, aquele que se oculta dentro de todo ser humano. O animal selvagem que tentamos ocultar. Nossos instintos assassinos que nos mantém ligados ao mundo natural. Durante os dias normais permanece oculto sob o manto da consciência. Então, surge a lua, bela e reluzente. Divino encanto que toma conta de meu corpo. Doce amada tão distante nos céus. Para você dedico todos os meus sacrifícios, para você destino todo o sangue derramado e a carne devorada. Todo corpo violado, todo coração despedaçado.
Recordo-me da noite anterior, cada momento gravado em minha mente. Cada segundo parecia uma eternidade. Saí de casa, iluminado pela minha doce amada observando-me do alto, imaculada no céu. Respiração ofegante, um misto de odores atrativos, escolha seu prato e sirva-se. Perambulei pelas ruas andando pelos recantos obscuros. Corpo curvado e oculto, um predador espreitando suas presas. Observando, analisando, escolhendo qual seria o prato principal. Só de lembrar do sabor da carne em contato com minha língua já começo a salivar. Meu corpo todo estremece, um rugido surgiu das profundezas de meu corpo. Alto e feroz, ecoou pelas ruas da cidade semi-adormecida. Meu corpo não parece mais o mesmo. As roupas parecem me aprisionar, livro-me delas. Sinto a liberdade. Livre das vestes sociais que aprisionam a todo cidadão. Livre como vim ao mundo. Sem roupas e sem crenças. Um animal como qualquer pessoa, apenas vivendo.
Distante no meu campo de visão ela surge. Vindo em minha direção. Andando apressada na escuridão da madrugada. Vislumbro a lua, minha amada. Esta seria seu sacrifício. A batida dos sapatos dela na calçada ecoam pela rua vazia. Barulho constante e regular. Cada vez mais próximo. Permaneço oculto nas sombras, tal qual governante que manipula seu povo. Mais próxima ela está, sinto seu cheiro. O medo exala dos poros de sua pele. Aroma incomparável, o perfume mais atrativo que alguém poderia querer. O medo dos covardes e dos corajosos, sentimento que nos mantém vivos. Mas para ela o medo não seria o bastante. Não a ajudaria em nada.
Em minha frente ela está, pulo sobre ela, como um lobo pula sobre um coelho. Derrubo-a no chão. Ela tenta se livrar de mim. Seguro sua cabeça com minha mão, e faço seu crânio encontrar o rígido chão. Apenas o suficiente para a inconsciência dominar seu corpo. Carne viva é disso que preciso. Carne fresca e sangue quente. Vísceras pulsantes. Arrasto-a para o recanto obscuro de um terreno vazio. O local perfeito para fartar-me e saciar minha fome, completando o vazio que se apossou de meu pútrido encéfalo. O corpo inconsciente em minha frente, com respiração ofegante, tudo será como antes. Deixo-a desnuda, livre das vestes, cheiro a carne fresca. Olho para sua face, um filete de sangue escorre de uma das narinas. Lambo e degusto o sabor deste delicioso líquido vermelho. Fluido agradável que me embriaga e me entorpece. Dedico a você, lua, minha amada. Tão pálida e distante no céu. Abaixo-me sobre o corpo inerte. O rugido verte de minhas entranhas e é emanado por minha garganta.
A vítima acorda. Olha para mim assustada. Como se tivesse visto um fantasma. Ou talvez um monstro. Não sou nenhum, nem outro. Sou animal, sou homem. Lobisomem. Abocanho sua face, perfuro sua pele sedosa com meus dentes afiados. Que arrancam pele, carne e cartilagem. Desfazendo a maquilagem. Entre uivos, devoro-a pedaço a pedaço. Banho-me no líquido rubro. Perante o olhar atencioso de minha amada. Carne vermelha e sedosa. Suntuosa refeição. Arranco os membros, primeiro braços, depois pernas. Ação que me trás recordações internas. Arrebento seu abdômen, retiro os intestinos que se esfacelam e liberam seu conteúdo. Impregnando o ambiente com agradável odor, melhor do que tudo. Minha amada saciada está, e assim permanecerá. Até que outra vez apareça no céu, indicando que eu devo caçar, para que assim eu possa mais uma vez amar.
Marius Arthorius
Exorcismo social
Dedicado à Emili, pela companhia e conversas filosóficas.
A dor lacerante oriunda de seus pés, como se estivessem sendo repicados metodicamente. Deitado em alguma espécie de maca, fortemente amarrado. Os olhos vendados. Apenas sentia gélidos dedos percorrendo seu corpo. Lâminas rasgando sua pele. Podia claramente sentir que alguns pontos de sua pele haviam sido costurados fortemente. Sentia a dor irritante e constante de tais partes. Em que inferno de local estaria?
As vendas foram retiradas. A forte claridade do local ofuscava sua visão. Conseguia distinguir apenas uma forma humanóide observando-o. Levou algum tempo até perceber que a pessoa em sua frente usava vestes médicas. Vestes brancas, marcadas pelo contraste vermelho do sangue impregnado em diversas partes. Olhou ao redor. As paredes e o chão eram recobertos por pequenos azulejos brancos. Uma lâmpada fluorescente no teto irradiava a forte luminosidade branca. No chão havia sangue derramado por diversas partes. Ao lado da maca, uma mesa metálica com diversos instrumentos cirúrgicos. E, o horror, diversas partes humanas, amontoadas em uma bacia plástica.
- Onde eu estou? – indagou com uma voz trêmula o prisioneiro.
- Você está aqui. Não lá, apenas aqui. Não lhe convém saber a localidade. Pois essas informações são desnecessárias. – respondeu a voz fria por detrás da máscara médica que ocultava o rosto.
- Isso é um hospital? Eu sofri algum acidente? – perguntou o prisioneiro.
- Seu acidente foi nascer. Ser errante que se recusa a pensar. Tu és fruto podre. A putrefação é teu destino, para que então, a vida possa brilhar. – falando isso o médico empunhava seu fiel instrumento cirúrgico, um bisturi. – Aqui não é hospital, apenas se for um hospital para a sociedade. Indivíduos não são curados neste local, eu apenas liberto a sociedade de seu mal.
- Então por quais motivos estou aqui e o que você fez comigo? – perguntou o prisioneiro tentando libertar-se das amarras que o seguravam preso à maca. Cada movimento fazia surgir dor de diferentes partes de seu corpo. Cortes, lacerações e pontos costurados tomavam conta do que antes foi um corpo inteiro.
- Quero apenas que você compreenda tudo que seus atos originaram. Nada há após a morte, assim sendo, não há nenhum ser supremo que avaliará sua vida. Não há justiça divina. Faça você o bem ou o mal. Deve-se, pois, fazer o bem por saber que esta será a melhor convicção para se ter. Seus atos serão lembrados pelas gerações vindouras. E estas, poderão ser gratas a você, se você for bom. Entretanto, você foi mal. Ser irracional. Os piores crimes e atrocidades você cometeu. – falava o médico, curvado sobre o prisioneiro, enquanto uma marca de saliva tornava-se visível na máscara que ele usava. Rodava o bisturi no ar como um guerreiro com sua espada em combate. – Os crimes contra a mente das pessoas! Esses foram os seus crimes! Contra a liberdade individual e contra o livre raciocínio que toda pessoa tem o direito de ter! Pagarás por tais atos, ó aquele-que-ilude!
- Que deus tenha piedade de sua loucura, pois sou sacerdote. Sou os olhos e ouvidos de deus, proclamador das verdades. Se fizeres algum mal para mim estarás provocando o próprio deus – respondeu o prisioneiro.
- Tu és criatura cruel! Que assola a humanidade com suas mentiras fantasiosas de além-mundo!
- Seu louco! Solte-me agora!
- Louco?! – respondeu furioso o médico arrancando a máscara que cobria seu rosto, mostrando seu sorriso salivante de dentes perfeitamente brancos e reluzentes. Cravou o bisturi no umbigo do prisioneiro, fazendo sangue verter, arrastou o bisturi rumo ao tórax. Abrindo uma fenda vermelha e superficial na pele. Enquanto o prisioneiro se contorcia e chamava pelo deus que ele tanto havia louvado. – Sua divindade não responderá aos teus apelos. Da mesma forma como ela não atende aos chamados de milhares de crianças inocentes que morrem de fome todos os dias! Vítimas do sistema econômico. Tudo o que você fez foi juntar suas mãos e proclamar palavras ao vento, nenhuma ação digna para com a sociedade. Mais vale poucas pessoas trabalhando do que milhões e milhões ajoelhadas perante imagens, esperando que alguma salvação venha dos céus.
O médico fez mais uma incisão no tórax do prisioneiro, indo de um mamilo a outro. O prisioneiro gritava e debatia-se tentando escapar de seu castigo. Enquanto sua última refeição escapava pela sua boca na forma de vômito. Liberando no ar um característico odor azedo. O médico então trocou o bisturi por uma pequena serra elétrica. De lâmina esférica e giratória. O zumbido do motor de tal instrumento tomou conta da sala e o horror se apossou dos olhos do prisioneiro. O médico iniciou a abertura do tórax de seu paciente, as costelas tremeram, por um momento a lâmina da serra enroscou nos ossos. Um forte soco no tórax fez a lâmina soltar e seguir seu digno trabalho. Chuva vermelha, sangue jorrava e espalhava-se para todos os lados. Escorria sobre a pele do prisioneiro até a maca e desta para o chão. A roupa do médico estava tornando-se cada vez mais rubra. Gritos e mais gritos originavam-se da garganta do prisioneiro.
- Então criatura cruel, aquele-que-ilude. Que se apossa das mentes indefesas e impõe suas crenças. Não gostas da dor? A Dor, um dos mais puros sentimentos, originado pelos atos nefastos ou amorosos. Originado de danos físicos ou sentimentais. Sente-se dor ao perder a pessoa amada, ou ao estar longe da mesma. Sente-se dor ao cortar uma parte do corpo ou ao mutilar um membro. Quem conseguirá compreender sua ligação com os demais sentidos? Dor acarreta sofrimento. Felicidade? Somente para alguns tipos de loucos. Não que sejam poucos.
O sacerdote aprisionado balbuciava palavras sem nexo. Os olhos vagos e distantes, moviam-se rapidamente em suas órbitas. Golfadas de sangue saltavam de sua boca, seu tórax era um lago vermelho, um lugar que qualquer vampiro gostaria de banhar-se. O médico admirava sua obra de arte. As tonalidades de cores perfeitamente agrupadas, cenário artístico inconfundível.
- Será que alguma pessoa sentirá saudades de você? Talvez aqueles que venderam as mentes para você. Em troca de salvação eterna e reconforto ilusório. Pois temem que a morte esteja presente atrás de cada esquina. Talvez estes sintam sua falta. Ah! A Saudades, essa vil criatura nefasta, que age em companhia da Esperança. Duas senhoras malévolas que trazem tanta aflição para as pessoas. Se forem acompanhadas da Incerteza, então se tem o palco para que a Dor e o Sofrimento possam agir. Como entender tais criaturas? Pois se até a mais fria e calculista das pessoas já experimentou sentimentos em algum momento de sua vida. Tenta-se em vão ser como uma máquina, apenas agir, nada sentir. Que diferença fará? Se no final, cada um é apenas mais um animal. Então, nada melhor do que desfrutar dos mais variados sentimentos.
No lago de sangue do tórax do prisioneiro era possível perceber as oscilações ocasionadas pelos batimentos cardíacos. O corpo dele tremia por inteiro, movia a cabeça de um lado para o outro, gemendo e grunhindo. Lentamente asfixiando com os pulmões colapsados e o tórax arrebentado.
- Diga-me, criatura das trevas, desejas proclamar alguma palavra antes que seu fim chegue? – disse o médico enquanto deslizava sua mão protegida por luvas de látex sobre a testa do prisioneiro. Deslizando-a pela lateral da face, até chegar ao queixo, para então segurar firmemente a cabeça do prisioneiro. – Nada a declarar em sua defesa? Veja que sou benevolente, não agi como a sua inquisição, pois lhe dei uma chance de oferecer-me vossa opinião. Apesar das provas já indicarem que tu és um ser abominável. Fujam as pessoas da presença de teus semelhantes. Corram e gritem assustadas, pois o parasita mental está a caminho. Parasita que agora irá perecer.
Nenhuma palavra saiu da boca do prisioneiro. Apenas baixos gemidos, arfadas de um ser tentando encontrar o ar. Seus pulmões não mais funcionavam. O mundo tornava-se escuro para ele. Nenhum som, nenhuma sensação. Nem mesmo a visão do médico que tinha submetido-o a tal castigo.
- E nesta sociedade o que tu vê? Oculto, abaixo das sombras da escuridão dogmática, o que tu vê? O medo? A morte? Responda-me! Se ainda há um pingo de vida digna em teu corpo, pronuncie as palavras e não ouse dar gargalhadas! – no lago de sangue, as oscilações causadas pelos batimentos cardíacos tornavam-se cada vez mais lentas, com um intervalo de tempo cada vez mais longo. – Encontrou o teu futuro? Chegou até ele? Aqui no presente, ao qual estamos eternamente acorrentados. O passado se foi e novos momentos chegam a todo instante. Que venham os tempos do amanhã. O futuro cheio de incertezas semideterministas, originadas de nossos atos e escolhas. Influenciado por escolhas de outros. Nada a declarar?
O corpo do prisioneiro estremeceu em espasmo uma ultima vez, os olhos reviraram nas órbitas. A vida chegou a seu fim. Suor escorria da testa do médico, cirurgia de precisão inigualável. Não poderia perder a morte que havia em suas mãos. O artista interage com sua obra do início ao fim. Criando uma ligação especial e, por vezes, até sentimental. A obra médica estava quase finalizada.
- Devem-se temer as criaturas que se escondem debaixo do manto obscuro do futuro? – perguntou o médico. - Ou simplesmente seguir adiante nesta luta cruel e implacável, nascendo a todo dia que se inicia e morrendo a cada dia que termina. Um dia a mais na vida, um dia a mais rumo a morte. Assim é, assim foi, e assim será. Sou médico e como devo livrar a pessoa de seus males, jurei para mim mesmo que não deixaria nenhuma doença corromper as pessoas. Extirpando os cânceres da sociedade. Eis minha missão, pois sou artista da razão. Nenhum ser pútrido continuará a parasitar nossa insana sociedade, enquanto eu estiver aqui para com tal exorcismo mudar a mentalidade.
O médico colocou as mãos dentro do tórax cheio de sangue. Como alguém que lava seu rosto em uma bacia de água, assim ele o fez. Lavou seu rosto com o líquido vermelho que há dentro de todos. Refrescando-se com fluido vital, impregnando-se com cheiro visceral. O médico cumpriu sua missão.
A dor lacerante oriunda de seus pés, como se estivessem sendo repicados metodicamente. Deitado em alguma espécie de maca, fortemente amarrado. Os olhos vendados. Apenas sentia gélidos dedos percorrendo seu corpo. Lâminas rasgando sua pele. Podia claramente sentir que alguns pontos de sua pele haviam sido costurados fortemente. Sentia a dor irritante e constante de tais partes. Em que inferno de local estaria?
As vendas foram retiradas. A forte claridade do local ofuscava sua visão. Conseguia distinguir apenas uma forma humanóide observando-o. Levou algum tempo até perceber que a pessoa em sua frente usava vestes médicas. Vestes brancas, marcadas pelo contraste vermelho do sangue impregnado em diversas partes. Olhou ao redor. As paredes e o chão eram recobertos por pequenos azulejos brancos. Uma lâmpada fluorescente no teto irradiava a forte luminosidade branca. No chão havia sangue derramado por diversas partes. Ao lado da maca, uma mesa metálica com diversos instrumentos cirúrgicos. E, o horror, diversas partes humanas, amontoadas em uma bacia plástica.
- Onde eu estou? – indagou com uma voz trêmula o prisioneiro.
- Você está aqui. Não lá, apenas aqui. Não lhe convém saber a localidade. Pois essas informações são desnecessárias. – respondeu a voz fria por detrás da máscara médica que ocultava o rosto.
- Isso é um hospital? Eu sofri algum acidente? – perguntou o prisioneiro.
- Seu acidente foi nascer. Ser errante que se recusa a pensar. Tu és fruto podre. A putrefação é teu destino, para que então, a vida possa brilhar. – falando isso o médico empunhava seu fiel instrumento cirúrgico, um bisturi. – Aqui não é hospital, apenas se for um hospital para a sociedade. Indivíduos não são curados neste local, eu apenas liberto a sociedade de seu mal.
- Então por quais motivos estou aqui e o que você fez comigo? – perguntou o prisioneiro tentando libertar-se das amarras que o seguravam preso à maca. Cada movimento fazia surgir dor de diferentes partes de seu corpo. Cortes, lacerações e pontos costurados tomavam conta do que antes foi um corpo inteiro.
- Quero apenas que você compreenda tudo que seus atos originaram. Nada há após a morte, assim sendo, não há nenhum ser supremo que avaliará sua vida. Não há justiça divina. Faça você o bem ou o mal. Deve-se, pois, fazer o bem por saber que esta será a melhor convicção para se ter. Seus atos serão lembrados pelas gerações vindouras. E estas, poderão ser gratas a você, se você for bom. Entretanto, você foi mal. Ser irracional. Os piores crimes e atrocidades você cometeu. – falava o médico, curvado sobre o prisioneiro, enquanto uma marca de saliva tornava-se visível na máscara que ele usava. Rodava o bisturi no ar como um guerreiro com sua espada em combate. – Os crimes contra a mente das pessoas! Esses foram os seus crimes! Contra a liberdade individual e contra o livre raciocínio que toda pessoa tem o direito de ter! Pagarás por tais atos, ó aquele-que-ilude!
- Que deus tenha piedade de sua loucura, pois sou sacerdote. Sou os olhos e ouvidos de deus, proclamador das verdades. Se fizeres algum mal para mim estarás provocando o próprio deus – respondeu o prisioneiro.
- Tu és criatura cruel! Que assola a humanidade com suas mentiras fantasiosas de além-mundo!
- Seu louco! Solte-me agora!
- Louco?! – respondeu furioso o médico arrancando a máscara que cobria seu rosto, mostrando seu sorriso salivante de dentes perfeitamente brancos e reluzentes. Cravou o bisturi no umbigo do prisioneiro, fazendo sangue verter, arrastou o bisturi rumo ao tórax. Abrindo uma fenda vermelha e superficial na pele. Enquanto o prisioneiro se contorcia e chamava pelo deus que ele tanto havia louvado. – Sua divindade não responderá aos teus apelos. Da mesma forma como ela não atende aos chamados de milhares de crianças inocentes que morrem de fome todos os dias! Vítimas do sistema econômico. Tudo o que você fez foi juntar suas mãos e proclamar palavras ao vento, nenhuma ação digna para com a sociedade. Mais vale poucas pessoas trabalhando do que milhões e milhões ajoelhadas perante imagens, esperando que alguma salvação venha dos céus.
O médico fez mais uma incisão no tórax do prisioneiro, indo de um mamilo a outro. O prisioneiro gritava e debatia-se tentando escapar de seu castigo. Enquanto sua última refeição escapava pela sua boca na forma de vômito. Liberando no ar um característico odor azedo. O médico então trocou o bisturi por uma pequena serra elétrica. De lâmina esférica e giratória. O zumbido do motor de tal instrumento tomou conta da sala e o horror se apossou dos olhos do prisioneiro. O médico iniciou a abertura do tórax de seu paciente, as costelas tremeram, por um momento a lâmina da serra enroscou nos ossos. Um forte soco no tórax fez a lâmina soltar e seguir seu digno trabalho. Chuva vermelha, sangue jorrava e espalhava-se para todos os lados. Escorria sobre a pele do prisioneiro até a maca e desta para o chão. A roupa do médico estava tornando-se cada vez mais rubra. Gritos e mais gritos originavam-se da garganta do prisioneiro.
- Então criatura cruel, aquele-que-ilude. Que se apossa das mentes indefesas e impõe suas crenças. Não gostas da dor? A Dor, um dos mais puros sentimentos, originado pelos atos nefastos ou amorosos. Originado de danos físicos ou sentimentais. Sente-se dor ao perder a pessoa amada, ou ao estar longe da mesma. Sente-se dor ao cortar uma parte do corpo ou ao mutilar um membro. Quem conseguirá compreender sua ligação com os demais sentidos? Dor acarreta sofrimento. Felicidade? Somente para alguns tipos de loucos. Não que sejam poucos.
O sacerdote aprisionado balbuciava palavras sem nexo. Os olhos vagos e distantes, moviam-se rapidamente em suas órbitas. Golfadas de sangue saltavam de sua boca, seu tórax era um lago vermelho, um lugar que qualquer vampiro gostaria de banhar-se. O médico admirava sua obra de arte. As tonalidades de cores perfeitamente agrupadas, cenário artístico inconfundível.
- Será que alguma pessoa sentirá saudades de você? Talvez aqueles que venderam as mentes para você. Em troca de salvação eterna e reconforto ilusório. Pois temem que a morte esteja presente atrás de cada esquina. Talvez estes sintam sua falta. Ah! A Saudades, essa vil criatura nefasta, que age em companhia da Esperança. Duas senhoras malévolas que trazem tanta aflição para as pessoas. Se forem acompanhadas da Incerteza, então se tem o palco para que a Dor e o Sofrimento possam agir. Como entender tais criaturas? Pois se até a mais fria e calculista das pessoas já experimentou sentimentos em algum momento de sua vida. Tenta-se em vão ser como uma máquina, apenas agir, nada sentir. Que diferença fará? Se no final, cada um é apenas mais um animal. Então, nada melhor do que desfrutar dos mais variados sentimentos.
No lago de sangue do tórax do prisioneiro era possível perceber as oscilações ocasionadas pelos batimentos cardíacos. O corpo dele tremia por inteiro, movia a cabeça de um lado para o outro, gemendo e grunhindo. Lentamente asfixiando com os pulmões colapsados e o tórax arrebentado.
- Diga-me, criatura das trevas, desejas proclamar alguma palavra antes que seu fim chegue? – disse o médico enquanto deslizava sua mão protegida por luvas de látex sobre a testa do prisioneiro. Deslizando-a pela lateral da face, até chegar ao queixo, para então segurar firmemente a cabeça do prisioneiro. – Nada a declarar em sua defesa? Veja que sou benevolente, não agi como a sua inquisição, pois lhe dei uma chance de oferecer-me vossa opinião. Apesar das provas já indicarem que tu és um ser abominável. Fujam as pessoas da presença de teus semelhantes. Corram e gritem assustadas, pois o parasita mental está a caminho. Parasita que agora irá perecer.
Nenhuma palavra saiu da boca do prisioneiro. Apenas baixos gemidos, arfadas de um ser tentando encontrar o ar. Seus pulmões não mais funcionavam. O mundo tornava-se escuro para ele. Nenhum som, nenhuma sensação. Nem mesmo a visão do médico que tinha submetido-o a tal castigo.
- E nesta sociedade o que tu vê? Oculto, abaixo das sombras da escuridão dogmática, o que tu vê? O medo? A morte? Responda-me! Se ainda há um pingo de vida digna em teu corpo, pronuncie as palavras e não ouse dar gargalhadas! – no lago de sangue, as oscilações causadas pelos batimentos cardíacos tornavam-se cada vez mais lentas, com um intervalo de tempo cada vez mais longo. – Encontrou o teu futuro? Chegou até ele? Aqui no presente, ao qual estamos eternamente acorrentados. O passado se foi e novos momentos chegam a todo instante. Que venham os tempos do amanhã. O futuro cheio de incertezas semideterministas, originadas de nossos atos e escolhas. Influenciado por escolhas de outros. Nada a declarar?
O corpo do prisioneiro estremeceu em espasmo uma ultima vez, os olhos reviraram nas órbitas. A vida chegou a seu fim. Suor escorria da testa do médico, cirurgia de precisão inigualável. Não poderia perder a morte que havia em suas mãos. O artista interage com sua obra do início ao fim. Criando uma ligação especial e, por vezes, até sentimental. A obra médica estava quase finalizada.
- Devem-se temer as criaturas que se escondem debaixo do manto obscuro do futuro? – perguntou o médico. - Ou simplesmente seguir adiante nesta luta cruel e implacável, nascendo a todo dia que se inicia e morrendo a cada dia que termina. Um dia a mais na vida, um dia a mais rumo a morte. Assim é, assim foi, e assim será. Sou médico e como devo livrar a pessoa de seus males, jurei para mim mesmo que não deixaria nenhuma doença corromper as pessoas. Extirpando os cânceres da sociedade. Eis minha missão, pois sou artista da razão. Nenhum ser pútrido continuará a parasitar nossa insana sociedade, enquanto eu estiver aqui para com tal exorcismo mudar a mentalidade.
O médico colocou as mãos dentro do tórax cheio de sangue. Como alguém que lava seu rosto em uma bacia de água, assim ele o fez. Lavou seu rosto com o líquido vermelho que há dentro de todos. Refrescando-se com fluido vital, impregnando-se com cheiro visceral. O médico cumpriu sua missão.
Marius Arthorius
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